Ele caminhou devagar, sem muito interesse, até a esquina onde a barreira policial havia sido montada. Um pequeno aglomerado de cabeças parecia sufocar um chapéu da polícia, e mesmo de longe era capaz de imaginar as perguntas tolas e as respostas evasivas. Atrás da faixa amarela de plástico, um corpo de mulher no chão era fotografado e examinado com preguiça por três peritos. Um deles batucava com um lápis a prancheta, sem o menor interesse pela falecida. O outro, ajoelhado, tinha cara de poucos amigos e dava indicações para o fotógrafo registrar os detalhes. Ele, de terno e gravata discretos, passou por baixo da faixa amarela sem ser notado.
- Perfuração? - Ele apontou para o corpo da moça sem alterar o tom de voz.
- Não, nada. - O fotógrafo disparou a câmera uma vez mais.
- Nem por arma branca?
O rapaz da prancheta olhou para ele de cima a baixo.
- Ah, colega, ainda estamos nas preliminares. - Sorriu disfarçadamente. - Sabe como é, devagar e com carinho... Temos que fazer render isso aqui para matar o tempo.
O perito que estava ajoelhado junto ao corpo falou alto.
- Possível escoriação no cotovelo.
O rapaz da prancheta anotou.
- Ninguém morre por bater o cotovelo. - Ele sussurrou. O rapaz da prancheta deu uma gargalhada que rendeu olhares ferozes do perito ajoelhado. Voltou a rabiscar no papel.
- Escoriação no cotovelo...
O fotógrafo tirou um 'close' do cotovelo direito.
- Possível escoriação no cotovelo esquerdo, esquerdo! - O homem de joelhos gritou sem olhar para trás.
Ele olhou para o fotógrafo em solidariedade. Mais uma fotografia.
- Até agora, o que se descobriu? - Ele aproximou-se do rapaz da prancheta.
- Não muito. Mulher branca, cabelos ruivos, classe média alta, nenhum documento na bolsa, só quilos e quilos de maquiagem. - O rapaz riu pelo nariz. - O assassino deve ter feito a limpa na carteira da dona aí, tudo leva a crer que foi roubo seguido de morte.
- Não foi.
- Ou então ele fez a limpa na cena do crime. Não tem nada aqui, só ela e a bolsa caída.
- Ele não retirou nada do local do crime.
- Como sabe disso? - O rapaz da prancheta coçou a barba com a caneta.
- O crime parece ter acontecido há pouco tempo. Não duvido que o assassino ainda esteja por perto, talvez até assistindo o trabalho da perícia.
Os três policiais entreolharam-se, incomodados.
- Mas ele deve ter tido tempo de limpar as provas. - O rapaz da prancheta tentou simular uma autoridade que não tinha. - Ou então teríamos mais elementos...
- Pois é... Não há sangue, perfuração, disparo de arma de fogo, nada. - O fotógrafo tirou uma fotografia de corpo inteiro da morta.
- Concussão cerebral.
- Como? - O perito ajoelhado no chão engatinhou até as pernas do cadáver - De onde o colega tirou isso?
- Concussão cerebral severa. A moça deve ter levado alguma pancada bem forte na cabeça, ficou tonta, caiu no chão e, sem o socorro adequado, o óbito...
- Tolice. - O perito ergueu uma das pernas do corpo estendido à porta do depósito. - Uma concussão cerebral deixaria ela tonta, fora de si, mas nunca...
- Uma concussão cerebral severa, eu disse. - Ele interrompeu o perito com sua autoridade de terno escuro bem cortado. - Começou com uma tontura, mas pode ter evoluído rapidamente para algo fatal. O colega deve saber disso.
O perito que agora examinava a cabeça da mulher morta olhou para ele com fúria contida.
- Tiro uma fotografia da cabeça? - O fotógrafo disparou a câmera sem esperar a resposta.
- Não vai adiantar muito, se a causa mortis foi mesmo uma pancada violenta e precisa na nuca que levou à concussão cerebral sem deixar hematomas ou vestígios. - Ele retirou do bolso do paletó uma cigarreira de prata. - Aceitam um mentolado?
O rapaz da prancheta e o fotógrafo avançaram sobre o estojo.
- Mas pensei que fossem proibidos agora de vender cigarros com aditivos. - O perito levantou-se do chão.
- Há leis neste país que demoram muito a entrar em vigor. - Ele estendeu a cigarreira para o perito. - Enquanto não nos prendem por fumar, você é meu convidado.
Os quatro homens desfrutaram de um momento de fraternidade em torno da pequena nuvem de fumaça e cumplicidade. No chão, a ruiva sem nome seguia com os olhos abertos em pavor cristalizado.
- Concussão cerebral? - O perito deu uma longa baforada.
- Acho que fica bem no relatório. - Ele jogou o cigarro pela metade no chão e pisou com seu sapato de verniz. - É uma tese ousada, mas não há outra possibilidade já que o legista não vai encontrar drogas ou álcool no corpo dela.
- E como o colega sabe disso? - O rapaz da prancheta imitou o perito.
Ele sorriu com a paz dos que nada temem.
- São só conjecturas. É isso que nos distancia daquelas pessoas comuns atrás da faixa amarela.
Os três policiais deram uma última baforada, enquanto pensavam nas agruras de seu serviço olhando o pequeno mar de rostos curiosos.
- O colega é muito seguro das suas conclusões. - O perito jogou seu cigarro em um canto do depósito e voltou-se para melhor guardar-lhe a fisionomia. - Em que unidade trabalha mesmo?
Mas ele já ia longe, além da multidão, carregando displicente a bolsa da mulher sem vida.
(Robertson Frizero)










