Quinta-feira, 2 de Julho de 2009

O passado


Tenho pena do cansaço dessas pedras, dessa casa que viu tanto e nada pode fazer a não ser ruir, lenta e solitária. Não haverá algum tipo de morte para as coisas? Já não basta a condenação de serem inanimadas? Mas, também entendo a felicidade de casarões antigos como esse, desacreditados pelas novas gerações, postos abaixo por ganância ou estreiteza de espírito. Deteriorados pelo abandono, eles escapam de um destino ainda mais cruel: sentirem-se inadequados entre blocos de concreto sem alma, com suas janelas que nunca se abrem, seus esqueletos de metal maleável e tolo, suas fachadas sem história. E aquela casa, o tom desgastado de suas pedras desnudas, deixa entrever a saudade ali guardada. À sombra de suas paredes, um menininho deve ter empunhado sua espada de madeira e defendido-a como seu castelo; debruçada em suas janelas, uma menina há de ter virado moça em seu amor à primeira vista por algum viajante; quase ouço a voz da mãe e o riso da esposa, o som dos convidados e o silêncio das horas amargas; seu telhado abrigou amores e esperanças e hoje, com a casa sem vida, de pouco serve além de desenhar no horizonte a aparência falsa de que aqui ainda há um lar.

Aproximo meus olhos e abro meus braços em direção à pedra nua. Quase sinto as vibrações do tempo em que era feliz.

- Quer ver o resto da casa? - O corretor de imóveis cantarola-me suas palavras vãs de sedução. - Umas pequenas reformas e ela ganha outra vida!

(Robertson Frizero)

Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

[Homens perdem paraísos]


Homens perdem paraísos
por menos que o rosto teu...
Por ti, já deixei manias,
esqueci ideologias,
fiz-me ateu, refiz-me crente,
desfiz-me da solidão
e entendo Adão, perfeitamente:
fosse eu o mais temente
a Deus, e vivesse em prece,
perderia o Éden com gosto
se a tentação me viesse
pelas maçãs de teu rosto!

(Robertson Frizero)

Sábado, 20 de Junho de 2009

Londres











A fiscal da imigracao e indiana.
O funcionario que organiza a fila usa turbante.
A atendente do hotel e russa.
A atendente da grande loja de departamentos e travesti.
A mulher de burca compra lingerie sensual e meia-calca de cores citricas.
O policial da autografos para as criancas no palacio da realeza.
A realeza e festiva, passa e acena com sorrisos.
Todos dizem 'por favor', 'obrigado' e pedem desculpas por inconveniencias que nao existiram.
Ha restaurantes com comida do mundo todo, menos da Inglaterra.
O restaurante que serve comida da Inglaterra tem gerente e garcons russos.
A indiana e punk, o romeno e hare krishna, a brasileira guia-nos pelos meandros da arte ocidental na National Gallery, que nao tem mapas nem guias em portugues.
Londres e a verdadeira metropole do mundo - cosmopolita sem ser opressora, acolhedora sem dividir-se em nichos.

O acesso a Internet custa £1 a hora, mas os teclados nao sao nada multiculturais.

(Robertson Frizero Barros)

Quarta-feira, 10 de Junho de 2009

Fantasias Infantis

Lembrei-me, hoje, de algo terrível que fiz em minha infância.

Era um desses outubros de meus primeiros anos de escolaridade - creio que eu tinha lá meus oito, nove anos de idade, talvez dez. Juntei minhas economias - era o tempo dos cofrinhos de papel cartão, distribuídos às crianças por uma dessas Cadernetas de Poupança que iriam à falência nos primeiros anos da década seguinte aos milagrosos anos 1970 - e fui até uma pequena loja de Long-plays que existia na avenida principal que margeava meu bairro - então o limite permitido para minhas andanças à pé pelas redondezas. Era o aniversário de minha mãe e eu, não sei bem por que cargas d'água, achei que iria agradar dando a ela o álbum "Sonhos", de Peninha...


Dei-lhe o presente, mas minha mãe não gostava do Peninha, enfim, havia quem gostasse mas não era o caso dela, e lá fui eu com o LP embaixo do braço na convicção de obter uma troca por algum outro que fosse de seu gosto. Ao chegar na loja, o atendente informou-me, educado, que não eram aceitas devoluções, pois do contrário todos iriam ali comprar um disco qualquer, gravar em fita cassete e depois pedir para trocar por outro... Eu disse que não era essa a minha intenção - claro que usando as palavras de uma criança de dez, vá lá, onze anos - mas não teve jeito de fazê-lo acreditar em mim.

O fato é que me senti ofendido, sei lá o porquê, e voltei para casa contrariado, guardando as lágrimas por quatro enormes quarteirões até chegar em casa e desfiar meu pequeno rosário de penas: para minha mãe e minha tia, disse que o atendente havia me chamado de mentiroso e se negado a trocar o LP - e não duvido que minhas palavras tenham colocado nesse evento cores ainda mais fortes, pois a mágoa era grande e, afinal de contas, ainda estava em mãos com o famigerado álbum do Peninha... A questão é que minha tia, defensora de minha honra até a morte, tomou minhas dores e foi comigo até a tal loja de discos. Lembro-me que entramos estabelecimento adentro e minha tia logo me fez apontar quem havia sido o atendente que me chamara de mentiroso. Eu, já vermelho de vergonha, mas nada disposto a desmentir minha versão caluniosa dos fatos, apontei o pobre rapaz contra quem a ira da minha tia se voltou, inclemente. O moço não teve muito o que dizer e o resultado foi que acabou acedendo a que fosse realizada a troca, diante dos olhares de reprovação do patrão, de pé atrás do balcão, e de minha tia enfurecida, dois palmos diante de seu nariz mal desenhado. Eu estava internamente tão envergonhado por minha mentira que peguei o primeiro disco que vi pela frente e consegui tirar minha tia de dentro da loja apressadamente. Demorei muitos anos até passar novamente em frente àquela loja, e minha mãe teve que se contentar em ganhar Coisinha do Pai, um long-play de Beth Carvalho - muito bom, por sinal - que até hoje tenho aqui guardado entre minhas relíquias.


Aquela mentira infantil veio-me à mente hoje ao recordar de relatos de vários amigos e colegas de estudo sobre situações que os professores andam a viver hoje em dia no ambiente escolar: não são poucas as histórias de docentes que se vêem enredados nas histórias mais absurdas por conta de mentiras - ou interpretações equivocadas - contadas por seus alunos aos pais e coordenadores pedagógicos; as ocorrências vão desde professores acusados de agredir seus alunos, oralmente ou fisicamente, até outras situações ainda mais disparatadas. Como minha tia estimada, os pais e a direção da escola tendem a acreditar sempre na versão da criança e não tardam a condenar previamente o professor, se não por medidas coercitivas, ao menos pela divulgação impensada de tais histórias no próprio ambiente escolar, lançando a imagem profissional dos docentes na fogueira das tensões escolares. Detalhes outros da vida dos protagonistas dessas histórias ocultas, como a culpa de pais ausentes por conta das atribulações cotidianas ou mesmo pela situação de serem pais separados em constante disputa pelo amor e aceitação dos filhos pode trazer uma carga dramática ainda maior ao que, sob outro olhar, seria visto de forma mais tranqüila por todas as partes. Mas o resultado, ultimamente, tem sido quase sempre o do professor refém de pais, alunos e das direções das escolas, que cada vez mais vêem os estudantes como clientes - como no dito popular, "o freguês tem sempre razão", e o medo de macular a imagem da escola com desconfianças e escândalos tem levado à vitimização do professor, a parte mais enfraquecida da teia de relações escolares.


Eu sei bem o que uma mentira infantil pode fazer; depois da minha atitude pueril, fruto de uma exagero interpretativo de minha parte - acreditar que as palavras que o vendedor falava em termos genéricos eram uma acusação direcionada a mim e somente a mim -, nunca mais vi aquele atendente por lá, o que pode ser um sinal de que minha ação provocou sua saída do emprego. As mentiras e exageros de nossos alunos também podem causar máculas terríveis em nossa reputação como profissionais de ensino - e os alunos, sobretudo os mais novos, não têm ainda a exata noção do poder destruidor da calúnia e da difamação.


Para mim, a vergonha de ter mentido - e prejudicado com minha mentira um inocente balconista de loja - permanece até hoje. Foi esse, aliás, o pecado que confessei ao padre de minha paróquia quando de minha primeira (e única) comunhão, que ocorreria alguns meses depois. Já não sou mais católico, meu bairro de infância já não mais existe - ao menos, como era em minha infância -, mas o peso de ter, talvez, contribuido para manchar a reputação de um vendedor ainda carrego em algum lugarejo inóspito da alma. Talvez não o trouxesse comigo se minha tia tivesse questionado antes de tomar meu partido, averiguado antes de agido - mas seria fácil demais para mim, hoje, culpar minha tia por meus próprios erros.


Espero que pais e professores estejam mais preparados para enfrentar situações semelhantes na atual turbulência da vida interna de nossas escolas de todos os níveis sociais. Os pais, que indaguem e questionem antes de acusar; os diretores e coordenadores pedagógicos, que averigüem com cautela antes de punir os professores e estes, quando acusados injustamente, que não deixem de buscar seus direitos e defender seu bom nome profissional afetado por uma fantasia infantil cuja inocência pode também ser destruidora. Dar razão, cegamente, às reclamações de uma criança pode ser uma forma insuspeitada de ensinar aos pequeninos como fugir às responsabilidades da vida pelos caminhos torpes da mentira.

(Robertson Frizero)

Domingo, 7 de Junho de 2009

Pega ladrão


Meus primos, que moravam em outro bairro, achavam esquisito. Mas lá para os lados de Bangu, todo mundo concordava comigo: o bom mesmo era ser ladrão.


Acho que a minha primeira vez foi aos nove anos de idade. Os dois mais fortes ficavam de longe observando o grupo, pensando estrategicamente nas escolhas a fazer. Eles conheciam o nosso potencial, pelo menos sabiam do que cada um era capaz na hora da verdade. Malandragem e perna comprida contavam pontos. Depois de algum tempo, eu passei a ser um dos primeiros escolhidos por conta do meu talento para encontrar esconderijos os mais fracos ficavam sob a minha guarda, protegidos da polícia por não terem pés ligeiros para a fuga. Mas, nos primeiros dias, eu era sempre um dos últimos a ser escalado para a ação.

Eu fico com o Gordinho e você fica com o Chorão.


Bochechas grandes rendem apelidos quando a gente tem nove anos de idade, mas eu não ligava. Tinha bom fôlego para correr e alguma inteligência acima dos demais, só faltava provar para o líder eu não iria decepcioná-lo. Além disso, o Chorão, com oito anos de idade, era um péssimo ladrão: bastava alguém da polícia apontar do outro lado do quarteirão, ele começava a gemer e às vezes até chamava a mãe dele para acudir. E ela era daquelas mães chatas, que apareciam na janela e gritavam lá de cima para a gente não encostar a mão no filho dela. Mas ninguém batia nele, nem a polícia nem nós, os ladrões – o Chorão é que era um frouxo!


Havia regras bem claras: o quarteirão era o limite. Não podia atravessar a Beirute e ficar dentro da padaria. Na Trípoli ninguém se arriscava mesmo, pois do outro lado era a favela. Também não valia cruzar a Rua Raul Azevedo e entrar no pátio de nenhuma das escolas, camuflando-se no recreio. Fugir para casa, nem pensar vontade de fazer xixi resolvia-se atrás das bombas hidráulicas dos prédios, se o zelador não estivesse olhando. Água, a gente pedia para a mãe, depois de acertar uma trégua com alguém do outro grupo. Todo mundo parava, polícia e ladrão bebiam no mesmo copo. Depois eles contavam até dez para os ladrões correrem e a caçada recomeçar. A gente respeitava isso como um código de honra.


Polícia e Ladrão era brincadeira séria. Podia levar horas, uma manhã inteira até, para a polícia pegar todos nós. Prender era fácil: se um deles colocasse a mão em você, era cadeia na certa. E a cadeia ficava nas escadas da portaria do Edifício Minas Gerais, porque eram as maiores e sem nenhum obstáculo em volta. Facilitava muito, pois para soltar um companheiro ladrão bastava encostar a mão nele. E os prisioneiros não podiam levantar o traseiro dos degraus. Era uma operação ousada, exigia rapidez para evitar ser preso também por ele, o guarda da prisão.


Nossos melhores soltadores de ladrão eram o Mil e o André, irmão dele. O André era o mais alto de todos e dava medo nos menores — mas isso era problema da polícia, que escolhia os mais fracos para tomarem conta dos presos e colocava os melhores corredores para prenderem a gente. Não adiantava nada, nenhum deles era mais rápido que o Mil. Enquanto um vinha por trás do Edifício São Paulo, o outro despistava a polícia fingindo que ia atravessar a Raul Azevedo, ou provocando com nomes feios inventados na hora. E o Mil sabia dar apelidos como ninguém, a gente ria muito quando um guarda queria sair no soco com ele e deixava o André livre para agir. Essa era a nossa principal arma: enquanto a polícia se preocupava em defender os presos, a gente tirava eles do sério, jogando pedras ou palavrões só para desarmar a guarda e libertar os companheiros.


Por isso todo mundo lá no Bairro Jabour concordava comigo: ser ladrão era bem mais divertido. No meu colégio em Bangu, diziam a mesma coisa: tinha colega de turma com um par de Kichute especial para correr da polícia. E lá para os lados da Rua dos Banguenses era bem mais complicado: os ladrões podiam se esconder da Ceilão até a Cobé e da Bombaim até a Sibéria. Isso era praticamente um mundo inteiro para a polícia cobrir, uns doze quarteirões bem grandes. Ser ladrão era muito, muito melhor.


Com o tempo, fui me especializando na função. Quando o André foi para o Segundo Grau, assumi com o Mil a tarefa de soltar os presos e cheguei até a escolher os companheiros ladrões quando ele ficava de castigo em casa. O Carlos Aury, meu melhor amigo, era rápido para fugir, mas não sabia ofender como o Mil. Nada que não se resolvesse com a ajuda dos meninos mais velhos e seus palavrões de adulto. Mas, aos poucos, a brincadeira foi sendo interrompida pelos tiroteios bandidos de verdade, da favela da Coreia, passaram a correr entre os blocos de quatro andares, fugindo da Polícia ou disputando com gente da favela do Sapo o domínio da área. A primeira a tirar o filho das brincadeiras foi a mãe do Chorão. Quando um dos chefes da favela do Rebu foi baleado sob a janela do meu quarto, meu pai gradeou todo o nosso apartamento térreo. Mesmo a minha mãe ela sempre mandava eu ir brincar na rua, lugar de menino correr e gastar energias passou a preferir que eu ficasse pela manhã matando os índios de plástico do meu Forte Apache.


Era divertido cavalgar portão afora empunhando um Winchester 73. Mas jamais me esqueci de como era bom ser ladrão.


(Robertson Frizero)

Quarta-feira, 3 de Junho de 2009

A primeira noite

Pablo Picasso - Mulher dormindo

Por mais que ela tomasse imensos cuidados, e procurasse sempre deixar tudo em perfeita consonância com o já meticulosamente calculado ritual de todos os dias, Graça terminava sempre por lamentar o fracasso de mais uma tentativa infrutífera de viver aquela que seria a noite mais feliz de sua vida. Ela passava, em verdade, horas a fio a elaborar mentalmente seus planos para atingir a excelência, delineando todos os detalhes daquela que seria, um dia, sua noite perfeita. A jovenzinha era mesmo absorvida por minúcias que iam da luminosidade ideal ao momento exato da noite em que deveria se recolher para poder, enfim, viver o prazer inigualável do torpor noturno absoluto – depois de um cansativo dia de um trabalho monótono e nada compensador –, do sono profundo e prazeroso que a faria a mais feliz das mulheres.

Sempre havia algo, contudo, que extraía Graça de seu sono leve de pluma e fazia com que ela despertasse de volta à sua penosa realidade de moça pobre, solteira, cujo único compromisso e ocupação na vida era atender clientes mal-educadas e exigentes que depositavam suas bolsas e frustrações sobre aquele balcão de loja de tecidos populesca em uma rua movimentada do centro da cidade. Graça era sozinha naquela terra estranha, tendo ido para lá a reboque de uma tia sua, também de Itaguaí, que há muitos anos viera para a capital para arranjar um bom casamento, mas que terminaria seus dias sendo camareira de uma atriz famosa do Paraíso, um desses teatros de vaudeville que boas senhoritas não costumavam freqüentar. Até onde a moça sabia, a tal tia estava bem arranjada, enriquecendo a ponto de mandar uns tostões mensalmente para a família em sua cidade natal. Mas a mãe de Graça, irmã da camareira, proibiu-lhe de buscar emprego em um lugar de perdição como o tal teatro deveria ser, a julgar pelos comentários da família e dos itaguaienses que vez por outra iam ao Rio de Janeiro. Restou-lhe o talento de costureira – a mísera herança que o sangue materno lhe dera – e, com ele, a oportunidade de conseguir o emprego na tal loja de tecidos. A mãe aquiesceu que a filha trabalhasse como atendente de loja – achou até bonito o nome da função – e assim Graça conseguiu livrar-se da pesada rotina da chácara, onde sempre havia muito o que se fazer e tempo nenhum para um bom repouso.

Desde que começara a trabalhar com os libaneses, o pouco que lhe restava do parco salário que recebia na magazine era despendido em aparatos e miudezas que a jovem balconista acreditava serem essenciais em sua busca pelo sono perfeito. A única diversão que lhe restava na vida, aquela para a qual ela dedicava todos os seus esforços, era adormecer, dormir profundamente e sem culpa. Jamais esqueceria o dia em que conseguiu permanecer em sua cama estreita de pensão por cerca de quatorze horas seguidas – um acontecimento que lhe rendeu a perda de um dia de salário na loja de tecidos e uma descompostura por parte de seu patrão, em frente a todas as outras companheiras de trabalho; mas as palavras duras de seu Ibrahim em nada lhe afetaram: ela carregava em si a felicidade de ter permanecido todo aquele tempo afastada das agruras do mundo das realidades, passeando em seus sonhos – dos quais nunca se recordava, mas que eram seu refúgio preferido. E, pensava ela, pagaria até três outros dias mais de salário para poder viver novamente aquela sensação singular de ter as pernas fora de seu domínio, o corpo pesado, os músculos doloridos pela posição descuidada e o olhar relaxado de quem havia estado fora do universo por algumas preciosas horas. Mas aquela noite de sono prolongado rendera-lhe, também, dores incômodas que a faziam pensar que o tempo assim gasto ainda estavam longe de ser a primorosa letargia que ainda estaria por encontrar.

Quando não estava entregue à vã tentativa do sono perfeito, Graça desfolhava organzas, brocados e cetins para as tediosas freguesas, ávidas por descontos sobre os quais ela não tinha poder algum de decisão. Ela aborrecia-se imensamente por não estar trabalhando no setor de roupas de cama, e nutria uma especial simpatia por clientes que buscassem a maciez da flanela ou o conforto do algodão para a feitura de prazerosos trajes de dormir. Detestava, de fato, vender aqueles tecidos finos e espalhafatosos, próprios para roupas de festa e que eram então a coqueluche da cidade. Uma ou outra fazenda ainda era de seu gosto, pois a textura lembrava aquela dos tecidos próprios das camisolas nupciais; quando encontrava uma freguesa cujo interesse por tais peças era de algum modo entusiasmado, Graça passava a se dedicar àquela venda como quem troca confidências com uma cúmplice, integrante da mesma irmandade secreta.

Graça tinha uma paixão secreta, que não revelava a ninguém – mesmo porque não tinha amigos com quem dividir seus devaneios tão particulares. O dono de seus sonhos de moça pobre era um rapaz franzino e de voz mortiça, mas cuja qualidade de sedutor residia nos anos de prática como vendedor de colchões em uma loja próxima à Confeitaria Aurora, onde vez por outra Graça gastava uns vinténs comprando confeitos apenas para admirar, de longe, acolchoados e travesseiros expostos quase a céu aberto. Ela apaixonou-se pelo tosco rapaz no dia em que, cheia de inesperada coragem, ela entrou naquela loja, em uma manhã de sábado, vestida com sua melhor roupa de missa e um sorriso ansioso nos lábios. Justino, o vendedor, atendeu-a com toda a atenção possível, desfiando explicações e conselhos sobre todos os produtos em estoque, com uma riqueza de detalhes que fazia sua voz rouca parecer mais forte e vigorosa do que realmente soava aos ouvidos de todos os demais clientes. Em vários momentos, Graça pareceu antever em seus olhos uma centelha da mesma busca sem fim a que ela mesmo se dedicava, e desde então passou a ver em Justino aquele que detinha consigo o segredo do qual ela tanto precisava para atingir o ideal da noite de sono impecável.

Há meses a jovem balconista juntava algumas economias no intuito de comprar uma almofada recheada com plumas de pescoço de ganso, uma delicada peça oriental cuja compra serviria, também, de ensejo ideal para rever o sapiente rapaz da loja de acolchoados. Com algumas horas excedentes de trabalho, pagas, à revelia de seu Ibrahim, por sua piedosa esposa, Graça conseguiu acumular o bastante para ter novamente coragem de entrar naquela loja e rever Justino.

O rapaz atendeu-a com um largo sorriso que tornava um pouco menos sofrível seu rosto apático, lembrou-se de sua visita de algumas semanas antes e elogiou sua elegância e sua postura de respeitável dama. Graça ficou envergonhada e respondeu com um rubor de faces repentino e indesejado que a fez rapidamente dizer a Justino de sua intenção de comprar a tal almofada. O vendedor experiente começou então a falar das origens daquela belíssima peça, alimentando Graça de estórias que poderiam, enfim, valorizar ainda mais aquela compra, sempre tão importante para ele em tempos de dificuldades como aqueles: o produto, nas palavras de Justino, era uma autêntica almofada turca cujos poderes no amor eram lendárias naquelas terras exóticas. As frases do rapaz simplório soavam nos ouvidos de Graça como uma música angelical, tecendo em sua mente a magia dos salões enevoados das casas de banho e a riqueza extravagante dos palácios, lugares onde o torpor do ócio, aos olhos da moça, deviam ser a própria visão do paraíso.

A nuvem de sonhos na qual Graça estava absorta foi desfeita pelo som improvável da voz de seu Ibrahim a chamá-la aos gritos, do meio do calçamento em frente à loja de acolchoados. O velho patrão, passando pela rua de volta de uma de suas excursões pelo centro da cidade atrás de seus inúmeros devedores, viu a funcionária a conversar animadamente com o vendedor e não conteve o impulso de desferir nela toda a raiva acumulada pelas dívidas que não conseguira resgatar naquela tarde. Recriminando-a sem piedade, alheio ao lugar e às pessoas que lhe cercavam, seu Ibrahim, ainda que estivesse coberto de suas razões de mascate – que vencera na vida à custa do trabalho duro, dele e das jovens que explorava –, já que Graça ausentara-se da loja de tecidos e ali estava, perdida em seus pensamentos, açoitava a atendente com palavras duras e desmedidas para a pequena travessura cometida pela pobre moça. A balbúrdia daquela cena chamou a atenção dos transeuntes e o interesse de alguns fregueses da Aurora, sempre ávidos por qualquer acontecimento que pudesse lhes preencher de novidade as tardes de outono comumente tediosas. Em pouco tempo, uma pequena multidão aglomerou-se à porta da loja de acolchoados e camas – o que arrancou do dono de tal estabelecimento um sorriso involuntário de felicidade, imaginando a possibilidade de obter daquele escarcéu alguma vantagem comercial.

Justino, contudo, foi tomado de enorme susto e, sem muito pensar, tomou as dores da indefesa moça, cujo segredo de ser uma simples balconista havia sido revelado pela descortesia do velho Ibrahim. O vendedor disse ao mascate alguns desaforos à altura das indelicadezas antes lançadas à jovem e, expulsando o velho do estabelecimento com o uso de força física que jamais imaginara ter, defendeu a honra da moça, recebendo os aplausos de alguns populares pela atitude cavalheiresca. Ibrahim saiu irritado, cuspindo vespas, ameaçando Graça de demissão e o jurando desforra ao franzino vendedor de colchões. A menina de Itaguaí, acostumada com o anonimato de sua condição de balconista e de migrante, parecia mergulhada em um transe que seria apenas despertado pela atitude de benevolência do rapaz: como forma de compensar a humilhação que a deixara entorpecida, Justino colocou nas mãos da pobre moça a almofada turca da qual ela tanto se encantara e disse-lhe que levasse a peça para casa como um presente seu para anuviar as emoções ruins daquele lamentável incidente.

Graça retirou-se da loja mortificada, enquanto a aglomeração de populares desfazia-se depressa, tão célere quanto se formara alguns minutos antes. Sem conseguir mirar Justino novamente, ela agradeceu-lhe pela almofada em voz acabrunhada e retornou à loja de tecidos, carregando abraçado junto ao peito o presente inesperado de seu jovem defensor. De volta ao trabalho, Ibrahim recebeu-a com ódio no olhar e seguiu em sua injustificável ladainha de impropérios, apesar dos apelos piedosos da esposa para que deixasse em paz a pobre balconista, sobretudo na frente das clientes. Mas as palavras ofensivas do patrão, as grosserias de algumas freguesas e mesmo o aviltamento de ter sido censurada em público, nada disso parecia abater Graça, cujo olhar perdido e a face cristalizada inspiravam a pena de algumas colegas de trabalho e a picardia de outras tantas que faziam da maledicência seu passatempo predileto.

Naquela noite, ao chegar ao quarto de pensão, que dividia com uma colega sua de trabalho, Graça despiu-se letargicamente, fez suas orações de todos os dias e, abraçada firmemente à almofada turca, presente do homem mais reto que jamais conhecera, adormeceu tranqüila, sentindo a maciez do cetim vermelho e dos bordados dourados daquele presente inusitado, e teve a primeira das mais perfeitas noites de sono.

(Robertson Frizero)

Terça-feira, 2 de Junho de 2009

Das amizades silentes


Sei que distante, sou não mais que sombra

a voejar por essa alma tua...

Mas seja eu sombra leve que flutua

e não o espectro morto que te assombra.




(Robertson Frizero)

Sexta-feira, 29 de Maio de 2009

O poeta e o fingidor

"I am Blanche DuBois." (Tennessee Williams)

Recentemente deparei-me com o artigo de um professor de Literatura Norte-americana da Universidade de Toronto, Henry Makow, a respeito de A streetcar named desire ("Um Bonde Chamado Desejo", 1947), talvez a mais conhecida e celebrada peça teatral de um dos maiores dramaturgos daquelos Estados Unidos da América, Tennessee Williams (1911-1983). Sua abordagem peculiar sobre a obra-prima de Williams acusa o dramaturgo de querer promover, por meio dessa peça, um ataque frontal aos heterossexuais masculinos - aliás, o nome do site de Makow, savethemales (algo como "salvem os machos"), já é um indicativo da postura do articulista perante o tema. O professor de Toronto não só acusa o dramaturgo norte-americano dessa tentativa, a bem da verdade: para ele, a própria crença feminista de que a sociedade é sexista e homofóbica seria, em verdade, conseqüência de uma mascarada campanha dos homossexuais contra os heterossexuais.


Cartoon de Marlon Brando e Tennessee Williams ensaiando para a estréia de 'A Streetcar Named Desire'Sem querer me alongar sobre as colocações de Makow sobre a questão, é interessante no entanto analisar de onde ele extrai sua teoria a respeito de A streetcar named desire: para o crítico, a peça é uma sucessão de ataques à família tradicional - homem e mulher, heterossexuais ambos - perpetrado através da intereferência da personagem Blanche DuBois no matrimônio de sua irmã Stella, que seria um esteriótipo da mulher submissa ao homem, com o bruto e másculo Stanley Kowalski, o arquétipo e símbolo da sociedade machista dominante. Toda essa visão parece residir em uma simples declaração do dramaturgo, já que no início de sua argumentação Henry Makow diz que Tennessee Williams freqüentemente dizia que ele era Blanche DuBois. Partindo dessa declaração, o professor canadense qualifica Williams como neurastênico, promíscuo e chega a atribuir ao dramaturgo, homossexual assumido, uma atração luxuriosa por Stanley Kowalski. Mais adiante, ele afirma que Tennessee Williams odiava-se (uma idéia que ele extrai de um artigo de Gore Vidal, outro dramaturgo assumidamente homossexual e que era um notório opositor de Williams, com quem trabalhou no cinema e de quem se tornou depois inimigo pessoal); como Blanche DuBois. Williamsveria em Stanley Kowalski e sua violência uma forma de expiação de seus pecados.


E tudo isso a partir da declaração de Tennessee Williams de que ele era Blanche DuBois.


Vivien Leigh como Blanche DuBois e Marlon Brando como Stanley Kowalski na versão cinematográfica de 'A streetcar named desire', de 1951, dirigida por Elia KazanA personagem mais célebre de Williams, uma flamboyand senhorita sulista cujos encantos foram perdidos em decorrência de uma vida conturbada e da própria decadência do mundo ruralista, das grandes plantações e do glamour civilizatório em que vivia, talvez tenha traços da personalidade do dramaturgo que o tenham levado a se identificar com a personagem - para muitos críticos, o símbolo de um tipo de sociedade que feneceu a partir da Segunda Guerra Mundial e que se encontra atordoada com as rápidas mudanças sociais promovidas pelo pós-guerra (um tema, aliás, que é recorrente na dramaturgia norte-americana de então. Mas é forçada, exagerada a meu ver, a tentativa de identificá-la totalmente com o dramaturgo e, mais ainda, a de julgá-los - a ele e à sua criação - como sendo uma única coisa, indissolúvel. Decerto que em cada texto o escritor deixa um pouco de si - já dizia nosso Fernando Pessoa, talvez um dos maiores poetas da literatura universla, que "o poeta é um fingidor" que finge a si mesmo, que fala de sua dor de tal forma que a dor real parece uma dor criada apenas para a ficção. Mas há que se recordar que o texto ficcional não é confessional; há ali, na obra de ficção, também a visão de mundo do autor, a imaginação - e a aguçada percepção das coisas do mundo - que lhe permite criar situações e personagens que jamais viveu ou conheceu (ou foi). Do contrário, a literatura universal seria, inteiramente, uma tediosa sucessão de autobiografias - e há um sem número de exemplos que podem ser evocados para mostrar justamente o oposto.


Em se tratando de peças teatrais, isso é ainda mais forte, já que em geral o texto dramático surge para o dramaturgo muitas vezes de um único objeto ou de uma única cena, sobre a qual ele vai lançando hipóteses - e se esse objeto pertencesse a uma mulher, e se essa mulher estivesse prestes a ser despejada, e se... - que vão guiando a construção de uma trama que capte a atenção do expectador do início ao fim do drama. A streetcar named desire, por exemplo, nasceu da idéia primeira de Tennessee Williams de um grupo de homens jogando poker (o nome original da peça era, inclusive, A poker night); sobre essa cena corriqueira, Williams imaginou como seria a reação daqueles jogadores se duas mulheres entrassem na sala onde o jogo transcorria e intereferissem na diversão dos rapazes; o próximo se que Williams colocou foi justamente a idéia de que uma daquelas mulheres era uma dama sulista das que havia ele, dramatugro, conhecido em seus tempos de juventude no Mississipi, uma daquelas delicadas e afrancesadas senhoras de terra sulistas, cheias de não-me-toques... Daí surgiu Blanche DuBois, à qual Williams acrescentou todo um passado trágico e uma decadência que representava tão bem, à época do lançamento da peça teatral, as mudanças sociais que estavam a ocorrer no sul dos Estados Unidos, a mistura de raças e classes sociais que começava a acontecer e que tão bem simbolizada está no texto por sua localização na cidade de Nova Orleans, desde há muito um centro de miscigenação e multiculturalismo naquele país. O texto, aliás, é soberbamente poético, dando à trama cotidiana e de fácil compreensão para qualquer platéia a força de um mito contemporâneo. Identificar simplesmente Blanche DuBois com Tennessee Williams, e daí fazer toda uma leitura homofóbica de A streetcar named desire, é, a meu ver, uma imperdoável simplificação na qual o leitor mais atento de literatura não deve jamais sucumbir. Afinal, quem garante mesmo que Tennessee Williams fosse Blanche DuBois?


O poeta é um fingidor, jamais nos esqueçamos disso.

(Robertson Frizero)

Quinta-feira, 28 de Maio de 2009

Apontamentos para a biografia de um escritor

Fiódor Dostoiévski (1821-1881)Havia nele essa ideia, essa ideia magistral e necessária, que iria resultar no maior romance de todos os tempos, uma ideia que demandava folhas e folhas manuscritas em letra miúda e precisa, exigia planejamento e cautela, e leitura, muita leitura... Mas como escrever sobre a gente de sua pátria quando se está em solo estrangeiro, falar da coisas de sua terra natal estando tão distante, sem os pés tocarem o chão onde se nasceu, sem andar pelas ruas e captar suas vozes encurtadas pelo frio, pelo sofrimento? E como encher páginas e páginas com a mais extraordinária ideia quando falta o pão e a esposa míngua, de saudade e renúncia, a dar o leite quase seco à menina recém-nascida? Há que se subordinar a inspiração às exigências da vida, à premência dos prazos, à sede dos leitores por novas histórias?

Nas mãos pousadas sobre a escrivaninha abarrotada de papéis, Fiódor sente os primeiros tremores e perde os sentidos antes mesmo de amaldiçoar pela primeira vez no dia os céus cinzentos da Alemanha às vésperas da guerra.

(Robertson Frizero)

Quarta-feira, 27 de Maio de 2009

Recomendações

Não pegue sereno.
Não ande descalço.
Não brinque com fogo.

Não pise na grama.
Não pise na bola.
Não cuspa no chão.

Não dê esmola nos sinais.
Não alimente os animais.

Não esqueça de apagar a luz.
Não esqueça de pagar o carnê em dia.
Não esqueça de colocar o cinto de segurança.

Não fume.
Não buzine.
Não entre.

Não perca a promoção!
Não deixe de assistir!
Não fique fora dessa!

Não fale com estranhos.

Antes de dirigir, não beba.
Antes de ligar, leia o manual.

Antes de entrar,
verifique se o mesmo
encontra-se neste andar.

Vá pela sombra.
E não dê ouvidos ao que essa gente fala.

(Robertson Frizero)

Segunda-feira, 25 de Maio de 2009

Clemente e misericordioso


JOSH trinta anos, norte-americano, veterano da Guerra do Golfo; tem um pequeno problema de locomoção na perna direita; veste-se com certo desleixo; perdidamente apaixonado pela esposa.

FATMA vinte e cinco anos, iraquiana, muçulmana, esposa de JOSH; veste-se com roupas típicas de uma dona-de-casa norte-americana, mas sempre acrescentando algum elemento na vestimenta que remete às suas origens iraquianas.

TIM vinte anos, norte-americano, irmão mais novo de JOSH, engolidor de fogo em um circo.

SARAH quarenta e cinco anos, norte-americana, líder das mulheres da congregação local das Testemunhas de Jeová; veste-se sempre com um vestido preto de mangas compridas e blusa de gola rendada branca impecavelmente engomada.


-*-*-*-*-*-*-*-*-*-


Uma casa de subúrbio norte-americana. Ao fundo, a cozinha. Na direita centro, uma sala de estar com um pequeno baú de madeira, um sofá e uma poltrona de tecido gasto. Na esquerda centro, uma pequena mesa de jantar. À direita, a entrada para o corredor que dá acesso aos demais cômodos da casa. À esquerda, a porta da rua.


Ouve-se no rádio da cozinha “Cheek to cheek”, cantada por Fred Astaire. FATMA prepara o café da manhã e serve dois pratos sobre a mesa. O odor de ovos mexidos e café fresco está no ar. Ela está séria e faz tudo maquinalmente. JOSH entra pelo corredor da casa.


JOSH: (abraçando FATMA por trás enquanto ela coloca uma travessa com panquecas na mesa) Bom dia, querida.


FATMA solta-se do abraço e volta para a cozinha em silêncio.


JOSH senta-se à mesa.


JOSH: Querida, o bacon e a manteiga...


FATMA leva um prato de bacon e outro com um tablete de manteiga para JOSH, que sorri ao ser servido.


JOSH: (carinhoso) Os ovos mexidos... estão prontos?


FATMA busca os ovos mexidos e o café; serve-lhe uma xícara e vai para a cozinha.


JOSH: Ah, obrigado, querida.


FATMA desliga o rádio; retira do baú um pequeno tapete e estende-o na sala de estar. Cobre cuidadosamente a cabeça com o lenço de seda que traz amarrado ao seu pescoço. Volta-se na direção da porta da rua e começa a fazer suas orações. JOSH pára de comer e observa-a atentamente, incomodado e impotente.


TIM entra pela porta da rua. Traz na mão direita um isqueiro Zippo que constantemente abre e fecha com o polegar.


TIM: (para JOSH)(irônico e sem vida) Salve, soldado.


JOSH faz um sinal para que ele fique em silêncio e aponta para FATMA, ajoelhada no chão. TIM ri em silêncio e imita-a. JOSH olha para ele com raiva. FATMA termina sua oração e levanta-se. Percebe a presença de TIM, mas não olha diretamente para ele. Retira o lenço da cabeça, guarda o tapete no baú, vai até o esposo e beija-o na testa.


FATMA: Bom dia, esposo.


FATMA vai para a cozinha. JOSH observa-a atentamente, ainda embevecido pelo beijo. TIM ri, puxa uma cadeira e senta-se à mesa no lugar que seria de FATMA; serve-se de panquecas e bacon e come vorazmente.


TIM: E eu, cunhada? Não ganho nem um bom dia?


JOSH: (reservadamente para TIM) Tim, mais respeito...


TIM: (em voz alta, desafiador, olhando para FATMA) Mas eu não estou desrespeitando ninguém... Apenas pedi um “bom dia”... Se lá do outro lado do mundo eles não tem educação, aqui na América nos damos “bom dia” pela manhã...


FATMA vai até a mesa; vê TIM sentado em seu lugar; dá meia-volta, pega prato, talheres e xícara na cozinha e senta-se do outro lado da mesa.


FATMA: (sem olhar para TIM) Bom dia.


TIM: Ah. Muito bem. Finalmente resolveu aprender os costumes locais. Esses bárbaros...


JOSH levanta-se em uma explosão de fúria e agarra o irmão pela camisa, erguendo-o.


JOSH: Você está hospedado em minha casa e essa aqui é minha mulher. Você vai respeitá-la como a dona desta casa nem que eu tenha que abrir a sua cabeça ao meio e enfiar isso lá dentro, entendeu?


TIM, assustado, solta-se com dificuldade das mãos do irmão e volta a sentar-se à mesa. FATMA observa-o com olhar altivo.


TIM: Que inferno, Josh, amarrotou minha camisa toda! Vocês também não têm senso de humor nenhum... Desde que essa terrorista entrou na sua casa...


JOSH: (interrompendo-o em novo acesso de fúria) Cala essa tua boca, Tim! Nem mais uma palavra! E pára com esse isqueiro dos infernos!


TIM: Ah, esqueci... O meu irmãozinho mais velho tem medo do fogo desde que voltou da guerra... (acende o isqueiro) Que azar o teu... Tem medo do fogo e tem um irmão incendiário... (rindo, levanta e estende o isqueiro aceso na direção de JOSH) Quem brinca com fogo, acaba queimado...


JOSH: (levantando-se da mesa, em crise de pânico) Sai daqui, sai de perto de mim, sai daqui!...


FATMA joga-se entre TIM e JOSH, olhando franca e desafiadoramente para TIM. Dá um tapa na mão de TIM e o isqueiro cai no chão.


TIM: (debochado) Nossa... Além de serviçal de cama e mesa ela agora também é guarda-costas de veterano de guerra?


JOSH dá um empurrão em TIM, que quase cai.


JOSH: Não quero mais ouvir tua voz hoje, Tim.


TIM, irritado, olha para JOSH, pega uma fatia de bacon do prato e vai para o quarto. FATMA senta-se; serve-se de panqueca e ovos. JOSH senta-se e observa-a, constrangido.


JOSH: Querida, perdoe o meu irmão, ele... (pausa) Ele não sabe o que...


FATMA olha para JOSH fixamente; ele desvia o olhar e fica em silêncio. Aos poucos, JOSH retoma o café da manhã e eles comem sem olhar um para o outro.


JOSH: Você quer ir comigo para a loja hoje?


FATMA: Não.


JOSH: Pensei que talvez você quisesse sair um pouco de casa, olhar o movimento na rua.


FATMA: Para quê?


Silêncio sepulcral. FATMA busca a jarra de café.


FATMA: Mais café?


JOSH: Sim, obrigado.


FATMA serve café a JOSH.


JOSH: O que você tem?


FATMA: Nada.


JOSH: Fale, querida, o que fez você ficar assim?


FATMA: (olhando para ele, incrédula) Assim como? Este é o meu jeito de todos os dias.


JOSH: Irritada.


FATMA deposita bruscamente a jarra de café sobre a mesa.


FATMA: Este é o meu estado normal de todos os dias.


JOSH: Irritada, sim.


FATMA: Marido – não quero falar nisso.


JOSH: Eu sou seu marido, eu só quero o seu bem...


FATMA: Meu bem?


TIM: (em off) Inferno!


FATMA olha desaprovadoramente em direção ao quarto.


JOSH: Ele já vai embora daqui.


FATMA: (dissimulada, tocando no peito) Não disse nada. Por mim...


JOSH: Falo sério. O Tim fica aqui só mais uns dias... Hoje mesmo eu vou falar com ele para procurar um outro lugar pra ficar.


FATMA: Por mim...


TIM: (em off)(aos gritos) Merda de casa! Merda de cidade! Merda de vida!


FATMA olha para JOSH e retira o prato de TIM da mesa. JOSH fica irritado e levanta-se bruscamente.


JOSH: (gritando) Tim!


TIM: (em off) Não enche o saco!


JOSH: (irritado, gritando) Tim, vem aqui agora!


TIM: (aparecendo na porta do corredor) O que foi agora, Josh? (pega o isqueiro do chão e acende)(debochado) Quer mais um pouquinho do meu fogo?


JOSH: (olhando apreensivo para o isqueiro) Você tem que arrumar um outro lugar pra ficar. Eu quero que esta semana ainda...


TIM: (interrompendo-o) Você quer ou é a terrorista quem quer? Quem é que manda aqui, meu irmão?


JOSH tenta soquear TIM, que foge para perto do sofá. JOSH caminha com dificuldade pelo ambiente atrás de TIM enquanto conversam. FATMA retira a mesa do café da manhã como se nada estivesse acontecendo. TIM abre e fecha o isqueiro enquanto fala com JOSH.


TIM: Desde que essa mulher entrou na sua vida, Josh, é isso... Você esqueceu a família e pisa no seu irmão, sangue do seu sangue!


JOSH: Quem é você para falar de família, Tim? Desde a guerra você se enfiou naquele circo idiota para fugir do alistamento militar... (ri) Engolidor de fogo – isso lá é profissão?


TIM: Vai se catar!


JOSH: E agora, depois de quase dez anos, Tim... Você volta aqui pra casa e se sente no direito de ofender a minha mulher...


TIM: (interrompendo-o)(apontando para FATMA) Uma beduína do deserto que você trouxe pra América como troféu de guerra!... Uma sanguessuga que só sabe andar pela casa com essa cara amarrada e falando essas coisas que ninguém entende...


JOSH: Cala a boca, Tim!


TIM: Você manda eu calar a boca porque sabe que é verdade!


JOSH: Você não sabe o que está dizendo, Tim! Eu amo essa mulher! Ela foi um presente de Deus, ela salvou a minha vida no Iraque!


TIM: Que idiota você é!...


JOSH: Você não sabe o que é amor, nem gratidão... Gratidão!... Você abandonou o pai e a mãe quando eu estava na guerra, deixou os nossos pais apodrecendo aqui, isolado na nossa casa enquanto você buscava uma vida de sucesso como artista... Ah, cadê a fama, Tim, cadê? (pausa) Você é infeliz porque a sua vida deu pra trás, nada do que você sonhava pra você aconteceu... Agora fica tentando estragar a minha vida com a sua infelicidade.


TIM: Infeliz, eu? Por que? Porque eu não trabalho na lojinha embaixo da minha própria casa, como você? Idiota, você não percebe que o seu mundo se limitou aos dois andares dessa casa de merda... Você não se deu conta que a sua vida agora é separada por uma escada: primeiro andar – emprego de merda, comendo poeira da rua no balcão da loja; segundo andar – vida de casado de merda com uma... (olha para FATMA) ...estrangeira qualquer que ninguém nesta cidade nunca vai engolir.


JOSH: Você é um invejoso, meu irmão... Por isso você é tão infeliz...


TIM: (interrompendo-o) No fundo você também está infeliz com essa odalisca de merda que você colocou aqui na casa que os nossos avós construíram, o patrimônio da nossa família, uma casa onde até você voltar do Iraque nunca tinha pisado um pé preto a não ser pra varrer o chão e lavar os nossos pratos!


JOSH atira um sapato em TIM, que se desvia.


JOSH: (com raiva contida) Você vai sair desta casa até sexta-feira... É o último prazo que eu dou pra você arrumar um outro lugar pra morar...


TIM: Covarde... A guerra acabou contigo, Josh... Você não é nada, um imbecil, dono de lojinha de ferragens nessa cidade de merda... Nem bater no seu irmão mais novo você consegue mais... Aquele tiro na sua perna deve ter atingido a tua macheza também, não é, não, irmãozinho?... Aposto que ela tem essa cara emburrada porque você não consegue...


TIM faz um gesto obsceno e JOSH explode em fúria, correndo atrás de TIM, que foge de casa. JOSH senta-se exausto no sofá. FATMA traz um copo de água para JOSH.


JOSH: (bebendo a água em goles pausados) Eu prometo... querida... Eu prometo... Até sexta-feira ele vai embora... E daí, seremos só nós dois novamente...


FATMA, olhar gélido, recolhe o copo e vai para a cozinha. JOSH levanta-se.


FATMA: Marido, vai aonde?


JOSH: Eu... eu tenho umas coisas para ajeitar na loja.


FATMA: E ele?


JOSH: O Tim? Não se preocupe, não vai acontecer nada.


FATMA olha apreensiva para JOSH.


JOSH: Eu estou no andar de baixo. Qualquer barulho estranho, eu subo. (acaricia o rosto de FATMA) Ele não vai fazer nenhuma bobagem, eu...


FATMA afasta-se. JOSH irrita-se e sai de casa.


FATMA ouve a porta bater e liga o rádio. Ouve-se “Love me tender”, cantada por Elvis Presley. FATMA vai até o baú. Retira do baú um tapete que está a bordar e senta-se no sofá. A porta abre bruscamente e TIM entra; ele salta o sofá e cai sentado ao lado de FATMA, que solta um grito abafado.


TIM: Escuta, sua cretina, você vai convencer o meu irmão a me deixar morar aqui ou então eu vou fazer a sua vida virar um inferno tão grande que você vai querer ter morrido baleada no meio da guerra...


FATMA: (segurando uma agulha como arma de defesa) Sai de perto de mim, senão...


TIM: (interrompendo-a) Senão o que, beduína? Vai me furar feito um boneco vudu? (rindo) Você é uma imbecil. (agarra as mãos dela com força e aproxima-se dela como se fosse dar um beijo) Não sei o que o meu irmão viu em você... Eu poderia matá-la agora mesmo, tamanha é a raiva que sinto da sua raça...


Ouvem-se batidas à porta. TIM larga FATMA imediatamente, levanta-se, faz um sinal de “silêncio” para ela e entra para o quarto.


TIM: (em off) Não esquece do que eu falei, beduína.


FATMA vai até a porta, ainda assustada. Entra SARAH, carregando uma pasta de couro.


SARAH: Bom dia. Que Jeová encha seu lar de alegria! (apertando a mão de FATMA) Sou Sarah Collins, morava aqui no bairro e estou de visita para trazer uma boa nova aos meus antigos vizinhos.


FATMA: (em voz baixa)(olhando na direção da porta do corredor) O que a senhora quer?


SARAH: Ah, não vou tomar muito do seu tempo...


FATMA: (olhando para TIM, que mostra o rosto na entrada do corredor) Não importa. Entre.


SARAH: Ah, obrigada, senhora. A senhora seria gentil e me serviria um chá?


FATMA: Um chá?


SARAH: Ah, que gentileza. Sim, sem açúcar... (acariciando a barriga) O inchaço tem me tirado um pouco a energia para caminhar de casa em casa... Mas, a senhora há de concordar, por Deus fazemos qualquer sacrifício, não é mesmo?


FATMA vai a cozinha e põe água para ferver; olha na direção do corredor e TIM entra, sorrindo maliciosamente. SARAH observa a decoração da casa e não percebe a presença de TIM. FATMA faz um sinal para que ele entre no quarto e ele responde com gestos obscenos.


SARAH: A senhora se incomoda de desligar o seu rádio? É que não estou muito acostumada com música profana, me dá arrepios...


FATMA, olhando ameaçadoramente para TIM, tira a água do fogo e vai na direção dele; TIM, assustado, faz um gesto ameaçador para FATMA – algo que signifique que quando SARAH for embora, ele irá matá-la – e entra para o quarto. FATMA desliga o rádio e serve o chá.


FATMA: (oferecendo a xícara) Seu chá.


SARAH: Ah, obrigado, senhora...


FATMA: (sentando-se ao lado de SARAH e retomando o bordado) Goodwill.


SARAH: Goodwill? Ah. Os Goodwill moravam aqui, não é mesmo? Eu tinha me esquecido que esta é a casa dos Goodwill... É que a senhora me pareceu... diferente. (vê o bordado nas mãos de FATMA) Eh... O meu menino brincava com o mais velho dos Goodwill quando eram crianças, antes de eu conhecer Jeová, sabe? É o rapaz aquele, parece que morreu na Guerra do Golfo... O nome dele era... Timothy. Não, Timothy era o mais novo, o que fugiu com o circo e deixou a família quase na miséria... Não consigo me lembrar do nome do mais velho dos Goodwill. Sei que era um nome bíblico...


FATMA: (interrompendo-a) Joshua.


SARAH: Sim, isso mesmo! Josh! Então você deve ser a pequena Ruth, Ruth Goodwill?


FATMA: Não.


SARAH: Não?


FATMA: Sou a senhora Goodwill. Joshua Goodwill é meu esposo.


SARAH: Esposo?... Então, ele não morreu na guerra... Desculpe-me, falaram isso há muito tempo atrás e como nunca mais voltei a este bairro depois que conheci Jeová... Então, a senhora é casada com o Josh.


FATMA: Sim.


SARAH: Mas a senhora não é daqui... O seu cabelo é lindo... (acaricia os cabelos de FATMA)


FATMA: Sou do Iraque.


SARAH: (ri) Iraque...


FATMA: (séria) Sou do Iraque.


SARAH: (solta os cabelos de FATMA, assustada) Ah.


FATMA: (olha na direção do corredor) O que a senhora deseja?


SARAH: (levantando-se) Eu vim, na verdade... (segura a pasta de couro firmemente) Acho que foi um engano... O chá estava delicioso, mas...


FATMA olha para o corredor, assustada; segura SARAH pelo braço.


FATMA: Fique.


SARAH: Por favor, meu braço...


FATMA: Por favor, fique. Fique, pelo menos até meu marido voltar.


SARAH percebe o pavor nos olhos de FATMA e sorri, compreensiva; acaricia a mão de FATMA que segura seu braço e senta-se novamente.


SARAH: (olhando para o alto)(convicta) Sim, Senhor, eu compreendi o vosso chamado! E estou pronta a dar o meu testemunho! (olha para FATMA) Obrigado, irmã, por me mostrar o caminho! (ergue-se radiante, abre a mala de couro e retira várias revistas de pregação religiosa)(em enlevo religioso, forçadamente cerimoniosa) Irmã Goodwill! Venho até a tua casa trazer a palavra, a palavra do Deus único, Soberano do Universo! Tu acreditas em Deus, irmã Goodwill?


TIM: (em off) (risos abafados) Aleluia...


FATMA: (seca)(para SARAH) Sim.


SARAH: Acreditas em Jeová, o Senhor Nosso Deus, e em seu filho Jesus, que irá escolher no dia do Armageddon entre os merecedores e os condenados?


FATMA levanta-se e caminha até a porta da rua; abre a porta, como se procurasse JOSH no andar de baixo; fecha a porta e senta-se à mesa. SARAH observa a tudo atônita.


SARAH: Irmã Goodwill? Acredita em Jesus?... (pausa)(estendendo para FATMA algumas revistas)(com crescente exasperação) Irmã Goodwill, eu tenho aqui umas publicações que irão abrir o teu horizonte! O Armagedon está próximo, o fim dos tempos, Jesus tem nos avisado constantemente, os sinais, os sinais dos céus! Precisamos da conversão, irmã, agora, mais que nunca! Aceita Jeová em sua vida! Os sinais... Os sinais estão cada vez mais claros... O Armageddon está chegando, será irmão contra irmão, como no início dos tempos, Abel e Caim, sangue do mesmo sangue! (respira fundo, exausta, depois retoma o mesmo ânimo) Irmã!...


FATMA: (interrompendo-a, nervosa) Meu nome é Fatma.


SARAH: Como, irmã?


FATMA: (gritando) Fatma! Fatma, entendeu? E eu acredito no verdadeiro Deus vivo, clemente e misericordioso, revelado por Mohammed, seu único profeta!


TIM entra cuspindo fogo; ele veste o traje de espetáculo – uma diminuta sunga vermelha brilhante e um adereço de cabeça imitando chifres diabólicos. As mulheres assustam-se e correm para o lado oposto da sala.


SARAH: É o Armagedon! É o fim dos tempos!


FATMA: (para TIM) Monstro!


SARAH: Oh, Soberano do Universo, livrai-nos de todo o mal!


FATMA: Pare com isso, pare com isso agora!


FATMA pega uma agulha e aponta para TIM. SARAH pega a mala de couro, guarda as revistas e agarra-a junto ao corpo, aflita. TIM pára de cuspir fogo e ameaça FATMA com a tocha que traz na mão direita.


TIM: E agora, beduína?...


FATMA: Seu irmão vai saber disso... Hoje mesmo você sai dessa casa!...


SARAH: Pelo amor de Jeová, deixem eu ir embora daqui...


TIM: Já acabou a sua fé, “irmã”?


FATMA: Deixe ela em paz.


SARAH: Satanás! Afasta-te de mim!


TIM: (para FATMA) Então, agora, a beduína e a testemunha de Jeová são amigas de infância, uma defendendo a outra?


SARAH: Afasta-te! Jeová é maior!


TIM: (para SARAH)(provocador) A “irmã” defende ela mas não sabe que ela reza todo dia virada pra Meca, não sabe que ela cospe em Jesus Cristo e pisa na Bíblia... A “irmã” não sabe que ela é terrorista, que meu irmão trouxe ela pra América como prêmio de guerra?


SARAH: Não fale comigo com essa língua de fogo e pecado!


TIM: (ri) É... Essa aí é uma escrava árabe que meu irmão deve ter comprado numa caravana qualquer e trouxe pra casa... Só isso explica um aleijado daquele com uma mulher estranha dessas...


FATMA: Você não dorme aqui esta noite...


TIM: Quem vai me tirar daqui? Você?


SARAH: Em nome de Jeová, Soberano do Universo, eu ordeno que Satanás saia dessa casa agora!...


TIM cospe fogo em direção a SARAH e FATMA.


SARAH: Demônio!


JOSH entra repentinamente, armado.


JOSH: Que diabos...


TIM cospe fogo em direção a JOSH. JOSH assusta-se e atira em TIM. TIM cai no chão. JOSH pega a tocha das mãos de TIM e afasta-se, assustado. SARAH dá um grito seco e desesperado. Silêncio sepulcral. FATMA caminha até TIM, ajoelha-se a seu lado, sente-lhe o pulso; toca-lhe a ferida sangrando no peito.


FATMA: (para JOSH, estendendo em sua direção a mão suja com o sangue de TIM) Ele está morto... Josh, ele está morto. Seu irmão...


JOSH desespera-se, larga a arma no chão e foge para a rua. FATMA olha para SARAH, como se pedisse socorro. SARAH sai correndo. FATMA levanta-se, estende a mão para a porta e faz menção de seguir JOSH; olha para trás, volta para o lado de TIM, ajoelha-se, retira o lenço de seu pescoço, cobre respeitosamente o rosto dele e começa a rezar e lamentar em sua língua natal.


Fade out.


FIM

(Robertson Frizero)


Sexta-feira, 22 de Maio de 2009

Hora certa


Os prazos existem para que delonguemos, até o último minuto, o reconhecimento de que somos incapacidade de administrar o tempo.

(Robertson Frizero)

Quinta-feira, 21 de Maio de 2009

Fábula chinesa





















Era uma vez
um sábio chinês
de calça xadrez
- e um cão pequinês...

Da torre ele viu,
de vestido anil,
a princesa Liu
chorando, senil...

Do alto, ele disse:
"Mas, que criancice!
Como se ele ouvisse...
Deixe de tolice!"

"Eu choro por mim!",
disse-lhe ela assim.
"O meu mandarim
nunca disse o 'sim'!..."

"Mulheres, mulheres!...
É bom que não esperes..."

"Que sabe o senhor
sobre o meu amor?"

"Não vive em Pequim,
não é mais mandarim..."

"Mas, sábio, eu o amo -
por Meng Po, eu clamo!"

"Deixe a deusa em paz,
esqueça o rapaz..."

"Ele me esqueceu?"

"Ele já não volta -
deixe de revolta..."

"O que aconteceu?"

"Teu amor... morreu!"

Liu nada entendeu;
olhou para o céu,
suspirou ao léu
e desfaleceu.

"Que tola, essa Liu!",
o sábio sorriu
- e o cão lhe mordeu.


(Robertson Frizero)

Quarta-feira, 20 de Maio de 2009

A literatura popular por um fio


Forma de publicação que remonta aos primeiros tempos da imprensa, a literatura de cordel - nome pelo qual são conhecidos os textos literários de origem popular, vendidos em pequenas folhas soltas expostas ao público em feiras e mercados populares principalmente das cidades do interior - pode estar com os dias contados.

Hoje vistos com certo exotismo por alguns, os folhetos, como seu público leitor a eles se referem, são uma forma de publicação ainda comum em países como Portugal, Espanha (onde compartilha nome semelhante ao usado no Brasil, o de pliego de cordel), México e na região italiana da Sicília. Em comum, essas publicações artesanais tem a forma de narrativa versificada, que no Brasil ganha a pitoresca condição de crônica do cotidiano popular ou mesmo de releitura dessa (e para essa) camada economicamente menos favorecida da população de temas gerais da atualidade. Não por acaso é que Luís da Câmara Cascudo, um dos maiores estudiosos do folclore brasileiro, dizia que o cordelista era o repórter informal da vida de boa parte do interior do Nordeste brasileiro, onde boa parte da produção do cordel floresceu no país.

Não raro os autores desses folhetos em cordel eram também cantadores, que usavam dessa forma primitiva de editoração uma maneira de materialização de sua poesia, que dessa forma pode se transformar em produto de subsistência para esses poetas - já que nas camadas populares não há a mais remota possibilidade de se ganhar a vida apenas pensando a literatura como arte abstrata... Assim o fizeram autores populares que hoje começam a ganhar alguma atenção dos estudos acadêmicos (como Patativa do Assaré, no Brasil, e António Aleixo, em Portugal), e eles não fizeram mais que reproduzir, ainda que inconscientemente, as práticas que existiam já desde o Portugal do Quinhentismo, no qual o próprio Gil Vicente divulgava seus autos e farsas na forma de folhetos avulsos.


No Brasil, o cordel vai ainda além da literatura, já que é associado diretamente a uma produção, também artesanal e intuitiva, de xilogravuras usadas para ilustrar as capas e mesmo o interior das longas narrativas versificadas dos folhetos. Sua força imagética é tamanha que hoje, não raro, o Nordeste é vinculado às imagens características dessas impressões simples e planas das ilustrações de cordel.

Atualmente, contudo, a rica literatura de cordel perdeu mercado no Brasil. A queda de interesse do público leitor pode ser associada à ascensão de outros meios de comunicação, é bem verdade, já que a explosão da imagem televisiva, marca maior da segunda metade do século XX, também atingiu fortemente o interior do país, maior praça de produção e distribuição dos cordéis. Contudo, o problema maior seja mesmo a falta de leitores - uma crise que é percebida no mercado editorial mainstream e que certamente afeta também um produto artesanal que servia anteriormente como uma das principais formas de entretenimento do nordestino interiorano. Se antes do crescimento da televisão a partir da década de 1950 a leitura era incentivada até mesmo por produtos culturais tão simples em sua forma e modo de produção, a assimilação passiva e o entretenimento escapista oferecidos pelos meios de comunicação de massa tornaram-se um obstáculo a mais à tentativa de construção de um Brasil letrado. Aliando-se a isso uma sucessão de governos que reduziram a questão educacional à expansão do número de vagas nas escolas e simplesmente deslocaram suas preocupações com a cultura para a iniciativa privada por meio de leis de renúncia fiscal de aplicação questionável, deu-se o risco que hoje vivemos de perder a literatura de cordel na poeira da história - e com ela toda a riqueza de uma produção cultural rica e espontânea que se contrapõe à idéia de que a arte é sempre fruto da erudição acadêmica.

(Robertson Frizero)

Terça-feira, 19 de Maio de 2009

Ilusão Praieira


Aos meus olhos cansados, parece que o vento
Jamais apagará o que escrevi na areia...
Mas não há juras eternas: o apagar é lento.


(Robertson Frizero)