JOSH trinta anos, norte-americano, veterano da Guerra do Golfo; tem um pequeno problema de locomoção na perna direita; veste-se com certo desleixo; perdidamente apaixonado pela esposa.
FATMA vinte e cinco anos, iraquiana, muçulmana, esposa de JOSH; veste-se com roupas típicas de uma dona-de-casa norte-americana, mas sempre acrescentando algum elemento na vestimenta que remete às suas origens iraquianas.
TIM vinte anos, norte-americano, irmão mais novo de JOSH, engolidor de fogo em um circo.
SARAH quarenta e cinco anos, norte-americana, líder das mulheres da congregação local das Testemunhas de Jeová; veste-se sempre com um vestido preto de mangas compridas e blusa de gola rendada branca impecavelmente engomada.
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Uma casa de subúrbio norte-americana. Ao fundo, a cozinha. Na direita centro, uma sala de estar com um pequeno baú de madeira, um sofá e uma poltrona de tecido gasto. Na esquerda centro, uma pequena mesa de jantar. À direita, a entrada para o corredor que dá acesso aos demais cômodos da casa. À esquerda, a porta da rua.
Ouve-se no rádio da cozinha “Cheek to cheek”, cantada por Fred Astaire. FATMA prepara o café da manhã e serve dois pratos sobre a mesa. O odor de ovos mexidos e café fresco está no ar. Ela está séria e faz tudo maquinalmente. JOSH entra pelo corredor da casa.
JOSH: (abraçando FATMA por trás enquanto ela coloca uma travessa com panquecas na mesa) Bom dia, querida.
FATMA solta-se do abraço e volta para a cozinha em silêncio.
JOSH senta-se à mesa.
JOSH: Querida, o bacon e a manteiga...
FATMA leva um prato de bacon e outro com um tablete de manteiga para JOSH, que sorri ao ser servido.
JOSH: (carinhoso) Os ovos mexidos... estão prontos?
FATMA busca os ovos mexidos e o café; serve-lhe uma xícara e vai para a cozinha.
JOSH: Ah, obrigado, querida.
FATMA desliga o rádio; retira do baú um pequeno tapete e estende-o na sala de estar. Cobre cuidadosamente a cabeça com o lenço de seda que traz amarrado ao seu pescoço. Volta-se na direção da porta da rua e começa a fazer suas orações. JOSH pára de comer e observa-a atentamente, incomodado e impotente.
TIM entra pela porta da rua. Traz na mão direita um isqueiro Zippo que constantemente abre e fecha com o polegar.
TIM: (para JOSH)(irônico e sem vida) Salve, soldado.
JOSH faz um sinal para que ele fique em silêncio e aponta para FATMA, ajoelhada no chão. TIM ri em silêncio e imita-a. JOSH olha para ele com raiva. FATMA termina sua oração e levanta-se. Percebe a presença de TIM, mas não olha diretamente para ele. Retira o lenço da cabeça, guarda o tapete no baú, vai até o esposo e beija-o na testa.
FATMA: Bom dia, esposo.
FATMA vai para a cozinha. JOSH observa-a atentamente, ainda embevecido pelo beijo. TIM ri, puxa uma cadeira e senta-se à mesa no lugar que seria de FATMA; serve-se de panquecas e bacon e come vorazmente.
TIM: E eu, cunhada? Não ganho nem um bom dia?
JOSH: (reservadamente para TIM) Tim, mais respeito...
TIM: (em voz alta, desafiador, olhando para FATMA) Mas eu não estou desrespeitando ninguém... Apenas pedi um “bom dia”... Se lá do outro lado do mundo eles não tem educação, aqui na América nos damos “bom dia” pela manhã...
FATMA vai até a mesa; vê TIM sentado em seu lugar; dá meia-volta, pega prato, talheres e xícara na cozinha e senta-se do outro lado da mesa.
FATMA: (sem olhar para TIM) Bom dia.
TIM: Ah. Muito bem. Finalmente resolveu aprender os costumes locais. Esses bárbaros...
JOSH levanta-se em uma explosão de fúria e agarra o irmão pela camisa, erguendo-o.
JOSH: Você está hospedado em minha casa e essa aqui é minha mulher. Você vai respeitá-la como a dona desta casa nem que eu tenha que abrir a sua cabeça ao meio e enfiar isso lá dentro, entendeu?
TIM, assustado, solta-se com dificuldade das mãos do irmão e volta a sentar-se à mesa. FATMA observa-o com olhar altivo.
TIM: Que inferno, Josh, amarrotou minha camisa toda! Vocês também não têm senso de humor nenhum... Desde que essa terrorista entrou na sua casa...
JOSH: (interrompendo-o em novo acesso de fúria) Cala essa tua boca, Tim! Nem mais uma palavra! E pára com esse isqueiro dos infernos!
TIM: Ah, esqueci... O meu irmãozinho mais velho tem medo do fogo desde que voltou da guerra... (acende o isqueiro) Que azar o teu... Tem medo do fogo e tem um irmão incendiário... (rindo, levanta e estende o isqueiro aceso na direção de JOSH) Quem brinca com fogo, acaba queimado...
JOSH: (levantando-se da mesa, em crise de pânico) Sai daqui, sai de perto de mim, sai daqui!...
FATMA joga-se entre TIM e JOSH, olhando franca e desafiadoramente para TIM. Dá um tapa na mão de TIM e o isqueiro cai no chão.
TIM: (debochado) Nossa... Além de serviçal de cama e mesa ela agora também é guarda-costas de veterano de guerra?
JOSH dá um empurrão em TIM, que quase cai.
JOSH: Não quero mais ouvir tua voz hoje, Tim.
TIM, irritado, olha para JOSH, pega uma fatia de bacon do prato e vai para o quarto. FATMA senta-se; serve-se de panqueca e ovos. JOSH senta-se e observa-a, constrangido.
JOSH: Querida, perdoe o meu irmão, ele... (pausa) Ele não sabe o que...
FATMA olha para JOSH fixamente; ele desvia o olhar e fica em silêncio. Aos poucos, JOSH retoma o café da manhã e eles comem sem olhar um para o outro.
JOSH: Você quer ir comigo para a loja hoje?
FATMA: Não.
JOSH: Pensei que talvez você quisesse sair um pouco de casa, olhar o movimento na rua.
FATMA: Para quê?
Silêncio sepulcral. FATMA busca a jarra de café.
FATMA: Mais café?
JOSH: Sim, obrigado.
FATMA serve café a JOSH.
JOSH: O que você tem?
FATMA: Nada.
JOSH: Fale, querida, o que fez você ficar assim?
FATMA: (olhando para ele, incrédula) Assim como? Este é o meu jeito de todos os dias.
JOSH: Irritada.
FATMA deposita bruscamente a jarra de café sobre a mesa.
FATMA: Este é o meu estado normal de todos os dias.
JOSH: Irritada, sim.
FATMA: Marido – não quero falar nisso.
JOSH: Eu sou seu marido, eu só quero o seu bem...
FATMA: Meu bem?
TIM: (em off) Inferno!
FATMA olha desaprovadoramente em direção ao quarto.
JOSH: Ele já vai embora daqui.
FATMA: (dissimulada, tocando no peito) Não disse nada. Por mim...
JOSH: Falo sério. O Tim fica aqui só mais uns dias... Hoje mesmo eu vou falar com ele para procurar um outro lugar pra ficar.
FATMA: Por mim...
TIM: (em off)(aos gritos) Merda de casa! Merda de cidade! Merda de vida!
FATMA olha para JOSH e retira o prato de TIM da mesa. JOSH fica irritado e levanta-se bruscamente.
JOSH: (gritando) Tim!
TIM: (em off) Não enche o saco!
JOSH: (irritado, gritando) Tim, vem aqui agora!
TIM: (aparecendo na porta do corredor) O que foi agora, Josh? (pega o isqueiro do chão e acende)(debochado) Quer mais um pouquinho do meu fogo?
JOSH: (olhando apreensivo para o isqueiro) Você tem que arrumar um outro lugar pra ficar. Eu quero que esta semana ainda...
TIM: (interrompendo-o) Você quer ou é a terrorista quem quer? Quem é que manda aqui, meu irmão?
JOSH tenta soquear TIM, que foge para perto do sofá. JOSH caminha com dificuldade pelo ambiente atrás de TIM enquanto conversam. FATMA retira a mesa do café da manhã como se nada estivesse acontecendo. TIM abre e fecha o isqueiro enquanto fala com JOSH.
TIM: Desde que essa mulher entrou na sua vida, Josh, é isso... Você esqueceu a família e pisa no seu irmão, sangue do seu sangue!
JOSH: Quem é você para falar de família, Tim? Desde a guerra você se enfiou naquele circo idiota para fugir do alistamento militar... (ri) Engolidor de fogo – isso lá é profissão?
TIM: Vai se catar!
JOSH: E agora, depois de quase dez anos, Tim... Você volta aqui pra casa e se sente no direito de ofender a minha mulher...
TIM: (interrompendo-o)(apontando para FATMA) Uma beduína do deserto que você trouxe pra América como troféu de guerra!... Uma sanguessuga que só sabe andar pela casa com essa cara amarrada e falando essas coisas que ninguém entende...
JOSH: Cala a boca, Tim!
TIM: Você manda eu calar a boca porque sabe que é verdade!
JOSH: Você não sabe o que está dizendo, Tim! Eu amo essa mulher! Ela foi um presente de Deus, ela salvou a minha vida no Iraque!
TIM: Que idiota você é!...
JOSH: Você não sabe o que é amor, nem gratidão... Gratidão!... Você abandonou o pai e a mãe quando eu estava na guerra, deixou os nossos pais apodrecendo aqui, isolado na nossa casa enquanto você buscava uma vida de sucesso como artista... Ah, cadê a fama, Tim, cadê? (pausa) Você é infeliz porque a sua vida deu pra trás, nada do que você sonhava pra você aconteceu... Agora fica tentando estragar a minha vida com a sua infelicidade.
TIM: Infeliz, eu? Por que? Porque eu não trabalho na lojinha embaixo da minha própria casa, como você? Idiota, você não percebe que o seu mundo se limitou aos dois andares dessa casa de merda... Você não se deu conta que a sua vida agora é separada por uma escada: primeiro andar – emprego de merda, comendo poeira da rua no balcão da loja; segundo andar – vida de casado de merda com uma... (olha para FATMA) ...estrangeira qualquer que ninguém nesta cidade nunca vai engolir.
JOSH: Você é um invejoso, meu irmão... Por isso você é tão infeliz...
TIM: (interrompendo-o) No fundo você também está infeliz com essa odalisca de merda que você colocou aqui na casa que os nossos avós construíram, o patrimônio da nossa família, uma casa onde até você voltar do Iraque nunca tinha pisado um pé preto a não ser pra varrer o chão e lavar os nossos pratos!
JOSH atira um sapato em TIM, que se desvia.
JOSH: (com raiva contida) Você vai sair desta casa até sexta-feira... É o último prazo que eu dou pra você arrumar um outro lugar pra morar...
TIM: Covarde... A guerra acabou contigo, Josh... Você não é nada, um imbecil, dono de lojinha de ferragens nessa cidade de merda... Nem bater no seu irmão mais novo você consegue mais... Aquele tiro na sua perna deve ter atingido a tua macheza também, não é, não, irmãozinho?... Aposto que ela tem essa cara emburrada porque você não consegue...
TIM faz um gesto obsceno e JOSH explode em fúria, correndo atrás de TIM, que foge de casa. JOSH senta-se exausto no sofá. FATMA traz um copo de água para JOSH.
JOSH: (bebendo a água em goles pausados) Eu prometo... querida... Eu prometo... Até sexta-feira ele vai embora... E daí, seremos só nós dois novamente...
FATMA, olhar gélido, recolhe o copo e vai para a cozinha. JOSH levanta-se.
FATMA: Marido, vai aonde?
JOSH: Eu... eu tenho umas coisas para ajeitar na loja.
FATMA: E ele?
JOSH: O Tim? Não se preocupe, não vai acontecer nada.
FATMA olha apreensiva para JOSH.
JOSH: Eu estou no andar de baixo. Qualquer barulho estranho, eu subo. (acaricia o rosto de FATMA) Ele não vai fazer nenhuma bobagem, eu...
FATMA afasta-se. JOSH irrita-se e sai de casa.
FATMA ouve a porta bater e liga o rádio. Ouve-se “Love me tender”, cantada por Elvis Presley. FATMA vai até o baú. Retira do baú um tapete que está a bordar e senta-se no sofá. A porta abre bruscamente e TIM entra; ele salta o sofá e cai sentado ao lado de FATMA, que solta um grito abafado.
TIM: Escuta, sua cretina, você vai convencer o meu irmão a me deixar morar aqui ou então eu vou fazer a sua vida virar um inferno tão grande que você vai querer ter morrido baleada no meio da guerra...
FATMA: (segurando uma agulha como arma de defesa) Sai de perto de mim, senão...
TIM: (interrompendo-a) Senão o que, beduína? Vai me furar feito um boneco vudu? (rindo) Você é uma imbecil. (agarra as mãos dela com força e aproxima-se dela como se fosse dar um beijo) Não sei o que o meu irmão viu em você... Eu poderia matá-la agora mesmo, tamanha é a raiva que sinto da sua raça...
Ouvem-se batidas à porta. TIM larga FATMA imediatamente, levanta-se, faz um sinal de “silêncio” para ela e entra para o quarto.
TIM: (em off) Não esquece do que eu falei, beduína.
FATMA vai até a porta, ainda assustada. Entra SARAH, carregando uma pasta de couro.
SARAH: Bom dia. Que Jeová encha seu lar de alegria! (apertando a mão de FATMA) Sou Sarah Collins, morava aqui no bairro e estou de visita para trazer uma boa nova aos meus antigos vizinhos.
FATMA: (em voz baixa)(olhando na direção da porta do corredor) O que a senhora quer?
SARAH: Ah, não vou tomar muito do seu tempo...
FATMA: (olhando para TIM, que mostra o rosto na entrada do corredor) Não importa. Entre.
SARAH: Ah, obrigada, senhora. A senhora seria gentil e me serviria um chá?
FATMA: Um chá?
SARAH: Ah, que gentileza. Sim, sem açúcar... (acariciando a barriga) O inchaço tem me tirado um pouco a energia para caminhar de casa em casa... Mas, a senhora há de concordar, por Deus fazemos qualquer sacrifício, não é mesmo?
FATMA vai a cozinha e põe água para ferver; olha na direção do corredor e TIM entra, sorrindo maliciosamente. SARAH observa a decoração da casa e não percebe a presença de TIM. FATMA faz um sinal para que ele entre no quarto e ele responde com gestos obscenos.
SARAH: A senhora se incomoda de desligar o seu rádio? É que não estou muito acostumada com música profana, me dá arrepios...
FATMA, olhando ameaçadoramente para TIM, tira a água do fogo e vai na direção dele; TIM, assustado, faz um gesto ameaçador para FATMA – algo que signifique que quando SARAH for embora, ele irá matá-la – e entra para o quarto. FATMA desliga o rádio e serve o chá.
FATMA: (oferecendo a xícara) Seu chá.
SARAH: Ah, obrigado, senhora...
FATMA: (sentando-se ao lado de SARAH e retomando o bordado) Goodwill.
SARAH: Goodwill? Ah. Os Goodwill moravam aqui, não é mesmo? Eu tinha me esquecido que esta é a casa dos Goodwill... É que a senhora me pareceu... diferente. (vê o bordado nas mãos de FATMA) Eh... O meu menino brincava com o mais velho dos Goodwill quando eram crianças, antes de eu conhecer Jeová, sabe? É o rapaz aquele, parece que morreu na Guerra do Golfo... O nome dele era... Timothy. Não, Timothy era o mais novo, o que fugiu com o circo e deixou a família quase na miséria... Não consigo me lembrar do nome do mais velho dos Goodwill. Sei que era um nome bíblico...
FATMA: (interrompendo-a) Joshua.
SARAH: Sim, isso mesmo! Josh! Então você deve ser a pequena Ruth, Ruth Goodwill?
FATMA: Não.
SARAH: Não?
FATMA: Sou a senhora Goodwill. Joshua Goodwill é meu esposo.
SARAH: Esposo?... Então, ele não morreu na guerra... Desculpe-me, falaram isso há muito tempo atrás e como nunca mais voltei a este bairro depois que conheci Jeová... Então, a senhora é casada com o Josh.
FATMA: Sim.
SARAH: Mas a senhora não é daqui... O seu cabelo é lindo... (acaricia os cabelos de FATMA)
FATMA: Sou do Iraque.
SARAH: (ri) Iraque...
FATMA: (séria) Sou do Iraque.
SARAH: (solta os cabelos de FATMA, assustada) Ah.
FATMA: (olha na direção do corredor) O que a senhora deseja?
SARAH: (levantando-se) Eu vim, na verdade... (segura a pasta de couro firmemente) Acho que foi um engano... O chá estava delicioso, mas...
FATMA olha para o corredor, assustada; segura SARAH pelo braço.
FATMA: Fique.
SARAH: Por favor, meu braço...
FATMA: Por favor, fique. Fique, pelo menos até meu marido voltar.
SARAH percebe o pavor nos olhos de FATMA e sorri, compreensiva; acaricia a mão de FATMA que segura seu braço e senta-se novamente.
SARAH: (olhando para o alto)(convicta) Sim, Senhor, eu compreendi o vosso chamado! E estou pronta a dar o meu testemunho! (olha para FATMA) Obrigado, irmã, por me mostrar o caminho! (ergue-se radiante, abre a mala de couro e retira várias revistas de pregação religiosa)(em enlevo religioso, forçadamente cerimoniosa) Irmã Goodwill! Venho até a tua casa trazer a palavra, a palavra do Deus único, Soberano do Universo! Tu acreditas em Deus, irmã Goodwill?
TIM: (em off) (risos abafados) Aleluia...
FATMA: (seca)(para SARAH) Sim.
SARAH: Acreditas em Jeová, o Senhor Nosso Deus, e em seu filho Jesus, que irá escolher no dia do Armageddon entre os merecedores e os condenados?
FATMA levanta-se e caminha até a porta da rua; abre a porta, como se procurasse JOSH no andar de baixo; fecha a porta e senta-se à mesa. SARAH observa a tudo atônita.
SARAH: Irmã Goodwill? Acredita em Jesus?... (pausa)(estendendo para FATMA algumas revistas)(com crescente exasperação) Irmã Goodwill, eu tenho aqui umas publicações que irão abrir o teu horizonte! O Armagedon está próximo, o fim dos tempos, Jesus tem nos avisado constantemente, os sinais, os sinais dos céus! Precisamos da conversão, irmã, agora, mais que nunca! Aceita Jeová em sua vida! Os sinais... Os sinais estão cada vez mais claros... O Armageddon está chegando, será irmão contra irmão, como no início dos tempos, Abel e Caim, sangue do mesmo sangue! (respira fundo, exausta, depois retoma o mesmo ânimo) Irmã!...
FATMA: (interrompendo-a, nervosa) Meu nome é Fatma.
SARAH: Como, irmã?
FATMA: (gritando) Fatma! Fatma, entendeu? E eu acredito no verdadeiro Deus vivo, clemente e misericordioso, revelado por Mohammed, seu único profeta!
TIM entra cuspindo fogo; ele veste o traje de espetáculo – uma diminuta sunga vermelha brilhante e um adereço de cabeça imitando chifres diabólicos. As mulheres assustam-se e correm para o lado oposto da sala.
SARAH: É o Armagedon! É o fim dos tempos!
FATMA: (para TIM) Monstro!
SARAH: Oh, Soberano do Universo, livrai-nos de todo o mal!
FATMA: Pare com isso, pare com isso agora!
FATMA pega uma agulha e aponta para TIM. SARAH pega a mala de couro, guarda as revistas e agarra-a junto ao corpo, aflita. TIM pára de cuspir fogo e ameaça FATMA com a tocha que traz na mão direita.
TIM: E agora, beduína?...
FATMA: Seu irmão vai saber disso... Hoje mesmo você sai dessa casa!...
SARAH: Pelo amor de Jeová, deixem eu ir embora daqui...
TIM: Já acabou a sua fé, “irmã”?
FATMA: Deixe ela em paz.
SARAH: Satanás! Afasta-te de mim!
TIM: (para FATMA) Então, agora, a beduína e a testemunha de Jeová são amigas de infância, uma defendendo a outra?
SARAH: Afasta-te! Jeová é maior!
TIM: (para SARAH)(provocador) A “irmã” defende ela mas não sabe que ela reza todo dia virada pra Meca, não sabe que ela cospe em Jesus Cristo e pisa na Bíblia... A “irmã” não sabe que ela é terrorista, que meu irmão trouxe ela pra América como prêmio de guerra?
SARAH: Não fale comigo com essa língua de fogo e pecado!
TIM: (ri) É... Essa aí é uma escrava árabe que meu irmão deve ter comprado numa caravana qualquer e trouxe pra casa... Só isso explica um aleijado daquele com uma mulher estranha dessas...
FATMA: Você não dorme aqui esta noite...
TIM: Quem vai me tirar daqui? Você?
SARAH: Em nome de Jeová, Soberano do Universo, eu ordeno que Satanás saia dessa casa agora!...
TIM cospe fogo em direção a SARAH e FATMA.
SARAH: Demônio!
JOSH entra repentinamente, armado.
JOSH: Que diabos...
TIM cospe fogo em direção a JOSH. JOSH assusta-se e atira em TIM. TIM cai no chão. JOSH pega a tocha das mãos de TIM e afasta-se, assustado. SARAH dá um grito seco e desesperado. Silêncio sepulcral. FATMA caminha até TIM, ajoelha-se a seu lado, sente-lhe o pulso; toca-lhe a ferida sangrando no peito.
FATMA: (para JOSH, estendendo em sua direção a mão suja com o sangue de TIM) Ele está morto... Josh, ele está morto. Seu irmão...
JOSH desespera-se, larga a arma no chão e foge para a rua. FATMA olha para SARAH, como se pedisse socorro. SARAH sai correndo. FATMA levanta-se, estende a mão para a porta e faz menção de seguir JOSH; olha para trás, volta para o lado de TIM, ajoelha-se, retira o lenço de seu pescoço, cobre respeitosamente o rosto dele e começa a rezar e lamentar em sua língua natal.
Fade out.
FIM
(Robertson Frizero)