domingo, 31 de julho de 2011

Arabesco


Minhas memórias confundem-se em uma infinidade de combinações.  Mas nenhuma delas é capaz de mudar o destino – tenho poucas certezas em mim além desta. Sobre aqueles dias, sei apenas que Seu Samir e sua loja de fazendas sempre existiram, ao menos em minhas memórias de criança, mesmo antes da tarde sangrenta.  Na primeira vez que fui àquela loja grande e mal iluminada, acompanhava minha mãe em suas compras de tecido e aviamentos para nossos uniformes escolares.  Seu Samir era sempre solícito com as freguesas, foi um dos primeiros comerciantes a instituir no bairro uma caderneta para as senhoras comprarem suas mercadorias com a condição de pagamento em módicas parcelas mensais, por preços um pouco maiores que os indicados nas peças.  Recordo-me também de seus três filhos, que lhe ajudavam na loja de sol a sol, sobretudo do Khaled, o caçula, com quem fiz uma amizade eterna que não sobreviveu à tragédia.  Minhas irmãs eram amigas de Samira, a quem o negociante parecia devotar um amor incondicional; ela adorava minhas irmãs, que sempre lhe ensinaram muitas coisas de nossa terra, e creio que por isso Seu Samir fazia muito gosto em atender minha mãe com especial solicitude e antes das demais compradoras. 
                   Bashir foi o primeiro a maldizer a chegada do tio Yaman.  Eu e Khaled brincávamos com minhas bolinhas de gude no depósito e ouvimos quando o filho mais velho de Seu Samir deu um murro no balcão e começou a discutir com o pai naquela língua estranha dos dois.  Khaled contou-me que falavam de um irmão do Seu Samir que vinha ajudar nos negócios, mas não quis me dizer a razão do choro de Samira, que se protegia da discussão atrás da caixa registradora, ou da voz alterada de Bashir, a quem caberia buscar, semanas depois, o tio e sua família na estação ferroviária. 
                   Vi o rosto de Amal assim que ela desceu da camioneta de Seu Samir.  Era pequena, frágil e caminhava com dificuldade.  Bashir carregava as malas para a edícula nos fundos da loja, onde o tio Yaman, a esposa e as meninas iriam residir nos primeiros tempos.  Eram quatro moças, Amal era a menor delas. Com a chegada da nova família, eu e Khaled perdemos o depósito e Samira ganhou as primas para disputar a atenção da vizinhança. A loja de Seu Samir passou a receber uma freguesia inesperada tão logo a notícia correu mundo, e o dono sorria feliz com o desfile de rapazes que iam até lá para comprar nem que fosse um único par de meias; o estoque de suspensórios esgotou-se na segunda semana e não raro Seu Samir tinha que ir à porta do estabelecimento pedir que a gurizada desimpedisse a entrada do estabelecimento.  As jovens sobrinhas de Seu Samir, que não falavam o português, sorriam do olhar de cobiça dos homens, cochichavam e cobriam o rosto com as mãos – menos Amal.  Seus olhos estavam sempre voltados para Yaman, que a mantinha no depósito, escondida dos olhares dos fregueses.  Enquanto disputava com Khaled nossas batalhas sangrentas com meus soldadinhos de chumbo, eu observava a menina sentada entre as tesouras e os carretéis de linha, imóvel como uma estátua de sal.  Eu pensava sempre numa forma de enredar sua tristeza em meus braços franzinos de moleque. 
                   Khaled não falava com Amal, o pai proibira-o. Bashir chamava-a de desaventurada na língua deles, mas também não lhe dirigia a palavra. Samira disse uma vez, para minhas irmãs, que era melhor que não mencionassem a menina para ninguém mais do bairro.  As filhas de Yaman evitavam-na, e ele tratava-a com voz ríspida e gestos largos.  Mas Amal, mais que Khaled, era a razão maior de minha presença na loja de aviamentos.  Por ela roubei da penteadeira de minha irmã mais velha um anel de fantasia, que joguei no depósito junto com um desenho de flores e um coração vermelho – mas Amal deixou anel e bilhete no chão, sem tocá-los.  Uma laranja que rolei para ela fez com que nossos olhares se cruzassem pela primeira vez.  Ela devorou a fruta com vontade, e pude então ver a cicatriz mal curada que tinha em seu braço esquerdo.  Seus olhos embaçados olharam-me sem encanto algum. Apaixonei-me por completo.
                   Yaman espantou boa parte das mulheres do bairro, que deixaram de ir ao Seu Samir depois das primeiras grosserias do irmão.  Ele insistia em lhes falar em sua áspera língua natal, era rude e cheirava a tabaco.  Mirava as freguesas incisivamente nos olhos e algumas senhoras proibiram suas filhas de comprar no Seu Samir.  As meninas de Yaman eram educadas, aprenderam os nossos modos e vendiam bem, mas de pouco lhes adiantou o esforço depois que o pai expulsou a socos um rapaz que ofereceu um bilhete elegante à mais velha.  Seu Samir agüentava tudo aquilo sem reclamar, e só deu ouvidos às reclamações de Bashir quando o irmão espancou Amal diante da freguesia, na calçada em frente à loja de tecidos.  Por culpa minha.
                   Foi uma maçã, vermelha e suculenta.  Minha mãe comprou meia dúzia delas, uma para cada um de nós.  Guardei a minha ainda enrolada no papel e fui correndo levá-la para Amal.  Enquanto Khaled tentava montar o meu quebra-cabeças novo, deslizei a fruta para dentro do depósito.  Amal tentou sorrir e mordeu a maçã, feliz.  Yaman olhava-nos à distância, sem eu saber, e arrastou a menina pelo braço ferido até a rua, esmurrando-a sem piedade, aos olhos de todos.  Um homem tentou impedir a covardia e Yaman derrubou-o com um pontapé.  A polícia foi chamada, Seu Samir fechou as portas da loja e eu fui proibido pela minha mãe de brincar com Khaled.
                   No dia seguinte, Yaman já não atendia os fregueses, minhas irmãs contaram-me em segredo.  Ele ficava na edícula o dia inteiro, enquanto sua esposa, que nunca antes aparecera em público, tomou o seu lugar no balcão.  Perguntei sobre Amal e minhas irmãs disseram que não mais ficava no depósito.  Samira contou-lhes que o tio gostava de ter a menina por perto, e que por vezes Khaled e ela ouviam Amal chorando nomes feios para ele, enquanto Yaman gemia e gargalhava.  Contaram ao pai e Seu Samir proibiu-os de ir para o pátio nos fundos da loja.
                     Antes da tragédia, eu tentei ver Amal por diversas vezes, escondido do outro lado da rua, subindo o muro da esquina, trocando bilhetes com Khaled durante as aulas.  Mas só na tarde sangrenta eu consegui ver uma vez mais seu rosto triste e inesquecível.  A esposa de Yaman gritava seu desespero com a pequena Amal presa em sua mão pesada, o vestido ensangüentado. Populares reuniram-se em frente à loja, sem que ninguém tivesse coragem de intervir. Quando os policiais chegaram para acudir a menina, a mulher agrediu-os, transtornada.  Amal ainda tinha o rosto em choque, a mão trêmula agarrando com força uma tesoura da loja. 
                   Na manhã seguinte, quando Samira veio se despedir de minhas irmãs em segredo, soubemos que o tio Yaman tinha morrido nas mãos daquela mesma menina que ele comprara como escrava para servi-lo e respeitá-lo em suas mais torpes vontades de homem.  E essas lembranças confusas fizeram de Amal essa sombra infeliz a acovardar-me as paixões.
(Robertson Frizero)

1 comentários:

Luh Dórea disse...

Apesar da indignação que sinto por saber que existem muitos tios Yaman e que uma infinidade de crianças, jovens e adultos padecem como Amal, digo que este é um conto bonito.