
Por insistência de sua filha mais nova, Dona Celestina havia parado de fumar com muito custo. Foram noites a fio sem piscar os olhos, agoniada pela promessa, o corpo clamando por aquele breve consolo dos momentos de agitação. Mas ela conseguiu, não sem reclamar o bastante para fazer a filha dar mais valor ainda ao sacrifício. E os benefícios não tardaram a aparecer, é bem verdade: passou a se alimentar melhor e, vá lá, incomodava menos os outros sem ter ao seu redor a nuvem de tabaco que se tornara quase um refúgio.
Agora a filha mais nova implorava que a mãe deixasse de falar da vida alheia.
De início, Dona Celestina sentiu-se humilhada. O pedido era uma ofensa - ela jamais falava das intimidades de ninguém: tudo o que fazia era comentar com as amigas sobre o que as outras pessoas deixavam à mostra sob a janela de seu apartamento, ou gritavam através das paredes grossas do prédio antigo. Que culpa ela carregava se as pessoas não protegiam sua própria privacidade? Mas a filha mais nova era insistente e, de tão carinhosa, não deixava muita escolha para a pobre mãe. E uma nova promessa foi feita, Dona Celestina entregou-se uma vez mais em holocausto.
Nos primeiros dias, a senhora agitada permaneceu reclusa no quarto. A filha desconfiou - seria uma estratégia da mãe para fazê-la desistir do prometido? Dona Celestina nada dizia. Não se recusou a tomar o café da manhã que lhe levaram, nem perdeu o capítulo da novela da tarde - seu pequeno vício. Mas não quis conversar com as amigas pelo telefone e evitou ir até a sala. A sacada que dava para a rua era seu grande medo. Sabia residir ali uma ameaça ao cumprimento da promessa.
- Inferno de promessa que eu fui fazer! - A senhora disse baixinho quando a filha saiu para trabalhar. - Que penitência sem sentido... Todos agora querem se meter na minha vida!
Sentou-se na poltrona habitual, sem tirar os olhos da porta da sacada, fechada com descuido. Pela fresta lateral, podia ver a luz do sol e subia-lhe aos ouvidos o burburinho das vozes a cruzar a rua logo abaixo.
- Estou proibida de falar, mas posso só ouvir...
De súbito, Dona Celestina levantou-se da poltrona e caminhou até a sacada, abrindo de par em par a porta de madeira. Os sons da multidão fizeram música em seus ouvidos. Que mal haverá nisso? Queria apenas ouvir os restos de conversa a passear sob a sua janela. E a quem pertenciam as palavras ouvidas na privacidade de sua sacada?
Do portão de ferro do edifício, uma risada chamou a atenção da senhora penitente. Era uma vizinha que ganhava a rua em conversa animada com um rapaz jamais visto por ali. A vizinha, alguns anos apenas mais moça que Dona Celestina, tinha a mesma cintura de vespa que a fizera famosa no passado, guardadas as devidas proporções, e a pele parecia conservada por mágica em seu frescor - ainda que a visão do todo facilmente denunciasse se tratar de uma senhora... Mas uma senhora que acabara de passar a mão direita nos cabelos longos do rapazote. Seu poder de sedução era ainda considerável, e o divórcio de dois anos antes deixou-a ainda mais misteriora. Sob a sacada, à luz do dia, beijaram-se calorosamente antes de se despedirem. Dona Celestina sentiu um comichão terrível; correu até o telefone, sem coragem; desesperou-se.
- Como querem que eu pare de falar da vida dos outros se as pessoas insistem em fazer o que não devem! - E Dona Celestina acendeu o primeiro de uma série interminável de cigarros.
(Robertson Frizero)
2 comentários:
Eheh. Uma bela cena!
Realmente, a maledicência é um vício - e não só de velhinhas, claro. Aliás, talvez não seja vício, talvez seja uma arte underground.
Beto, a deliciosa história de Dona Celestina me lembrou do varandal da casa de minha avó, na Praia do Barco, durante os finais de tarde. Uma roda de chimarrão com as comadres, e nenhuma clemência com os que passavam diante delas! Excelente! Abraços, Rubem
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