A quem interessa atender ao último desejo de um morto? O que se ganha com isso? Que sacrifícios são justificáveis para que se cumpra os desejos de alguém que já não está entre nós, os vivos, para exigir a satisfação de seus planos para o próprio funeral? Essas são perguntas que pairam ao longo da bela história de Mar do Poeta, curta-metragem que marca a estreia de Alan Mendonça Furtado na direção.
Para um filme de estreia, a proposta e realização de Furtado são audaciosas: o curta-metragem tem ares de filme de época em superprodução, ainda que se perceba ali muito mais o talento de um promissor cineasta que propriamente um orçamento elevado de produção. E talvez nisso resida a grande magia do filme: com poucos recursos, o diretor e sua equipe fizeram de Mar do Poeta um filme muito bem acabado, com uma direção de arte que funciona a favor da história e remete o expectador àquele tempo não referenciado no qual faz pleno sentido a história de um vigário que incita o prefeito de uma pequena cidade a juntar-se ao grupo de fiéis que cumprirá o último desejo do poeta local que acaba de falecer: ser sepultado à beira-mar. A empreitada é quase hercúlea se pensarmos que tudo isso se passa em um lugarejo muito distante do mar e em um tempo no qual o transporte do corpo precisa ser feito em carro de boi. No decorrer da história, diante das dificuldades de se conduzir aquele grupo de pessoas até o litoral para cumprir a última vontade de um defunto, o expectador questionará, junto com a personagem do prefeito, a validade de se empreender tão louca excursão. E é nessa pergunta crucial que reside a força e a razão de ser do filme: a quem serve a tarefa inglória de se atender ao pedido do poeta morto?
Outra questão sugerida pelo filme faz com que pensemos em sua importância: a quem serve o luto? O medo da morte, talvez melhor seria dizer a expectativa do momento da morte, faz com que a perda de alguém se torne o mais difícil dos acontecimentos. Pois o luto não existe pelo morto, mas pelos que permanecem. É um ritual de passagem necessário, através do qual o homem se torna capaz de retomar a vida e enfrentar a ideia de sua própria morte. É o que se vê em cada rosto do grande elenco que compõe a procissão de fiéis a carregar o corpo do poeta morto até a distante praia de seu sepultamento: fruto de uma boa direção de atores, vê-se em cada ator a motivação interna daquelas personagens, que empreendem tão penosa viagem na esperança de que também um dia suas mortes sejam respeitadas, suas vidas homenageadas pela falta que farão a alguém.
O curta-metragem tem cenas belíssimas, como a bem resolvida cena de abertura, na qual o vigário comunica ao prefeito sobre a morte do poeta, a genial e dinâmica cena em que os fiéis tentam retirar do atoleiro o carro de boi com o corpo do poeta e a emocionante cena em que os negros entoam um canto religioso em meio às agruras do caminho. Mas não se espere do filme de Furtado uma sequência de peripécias: é um filme de sutilezas, no qual cada bela imagem forma no expectador a mesma sensação de espera, a mesma pergunta em suspensão, jamais enfrentada por nenhuma das personagens, talvez por já estar respondida dentro de cada um: para que caminhamos? O cinema de Furtado, que se inicia nesse Mar do Poeta, parece caminhar no rumo de boas promessas futuras.
Veja o trailer do filme.
MAR DO POETA
Roteiro, direção e direção de fotografia ALAN MENDONÇA FURTADO direção de produção FERNANDO TIETZMANN produção executiva DÉBORA VIVIAM direção de arte GILKA VARGAS e IARA NOEMI figurinos ADRIANA BORBA efeitos especiais e set GERSON ALEMÃO (Efeito Brasil) make-up BABY MARQUES produção objetos VALÉRIA VERBA assitente de direção STEPHANIE BERGAMIN
assistente de figurino ELISA GRAEFF fotografia still MARCELO CURIA som direto GABRIELA BERVIAN
edição de som e trilha sonora PEDRINHO FIGUEIREDO montagem e finalização DANIEL GRIFFIN e ALAN MENDONÇA
ELENCO: EDER SANTOS . ARAXANE JARDIM . DORILDO BORGES . JOÃO BATISTA DOS SANTOS (in memoriam) . APOLÔNIO CYPRIANO . SANDRA ALENCAR . CAMILA NASI GALARZA . FÁBIO PIAS . ALESSANDRA CARVALHO . VANESSA CASSALI . PATRÍCIA GATTELI . LUCIANO CORREA TEIXEIRA . MÁRJORI MOREIRA . CLÁUDIA BARBOT . LÓREN DE ALENCAR BARCELOS . ROSMARIA ANTÔNIA DA SILVA . FABIANO GEREMIAS . MATHEUS KLEBER . HÍLTON VACCARI . JOÃO PAULO SACCHETTO
assistente de figurino ELISA GRAEFF fotografia still MARCELO CURIA som direto GABRIELA BERVIAN
edição de som e trilha sonora PEDRINHO FIGUEIREDO montagem e finalização DANIEL GRIFFIN e ALAN MENDONÇA
ELENCO: EDER SANTOS . ARAXANE JARDIM . DORILDO BORGES . JOÃO BATISTA DOS SANTOS (in memoriam) . APOLÔNIO CYPRIANO . SANDRA ALENCAR . CAMILA NASI GALARZA . FÁBIO PIAS . ALESSANDRA CARVALHO . VANESSA CASSALI . PATRÍCIA GATTELI . LUCIANO CORREA TEIXEIRA . MÁRJORI MOREIRA . CLÁUDIA BARBOT . LÓREN DE ALENCAR BARCELOS . ROSMARIA ANTÔNIA DA SILVA . FABIANO GEREMIAS . MATHEUS KLEBER . HÍLTON VACCARI . JOÃO PAULO SACCHETTO




1 comentários:
Hmm, parece bacana. Especialmente por se tratar de "um filme de sutilezas". Bom, sigo te acompanhando por aqui (aliás, feliz aniver atrasado! :)
Ah, publiquei no meu blog aquele conto sobre intertextualidade, no qual sugeriste algumas mudanças (já as fiz, aliás). Quando puder, manda notícias.
Abração!
PS - Ah, não é este mês que a 8inverso está completando mais um ano de vida?
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