sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Novelos




(Um quarto pequeno, com móveis que não combinam entre si – há uma uma cama em madeira clara na esquerda central do palco, encostada à parede, e um roupeiro de madeira escura, de estilo antigo, também junto à parede, no fundo da cena. Esses móveis contrastam com um computador, de um modelo um pouco ultrapassado, que está acomodado, na direita central do palco, em uma mesa improvisada com caixas de papelão. À frente do computador, uma cadeira de plástico; outra cadeira idêntica está ao centro do palco. As paredes estão decoradas com pôsteres de aviões de caça e com recortes de jornal com fotografias de atrizes famosas seminuas. Ao lado do armário, ao fundo e ao centro, fica a porta do quarto.)
(As luzes do palco acendem-se, e vê-se VIRIDIANA, uma senhora branca de seus setenta anos de idade, vestida com roupas que denotam certa sofisticação e sentada na cadeira ao centro do palco, de frente para a platéia. Ela tem uma sacola de bordados no colo, mas está a folhear uma revista que repousa sobre os bordados.)

VIRIDIANA
(surpresa, levando a mão ao peito e olhando para o alto) Minha nossa, valei-me meu Pai Celeste! (ela dá um suspiro bastante teatral, faz uma pausa e volta a folhear a revista, com interesse redobrado) Pobrezinha!... Que dentição horrorosa! (troca de página da revista) (irônica, falando com a imagem na revista) Hum, com essas unhas desse jeito, minha filha, você não deve nem lavar as suas calcinhas!... Não deve nem saber o que é um tanque cheio de roupa suja!... E o que é isso aqui? (ela ergue a revista até a altura dos olhos, e o público vê que ela está a folhear uma revista masculina de sexo explícito) Meu Deus, isso é que é homem para encher a cama de uma mulher...
(entra SUZANA, uma moça negra, de estatura baixa, de cerca de dezenove anos de idade. Ela traz uma pequena bandeja com uma caneca de chá e uma caixa de remédios. VIRIDIANA esconde rapidamente a revista embaixo de seus bordados e adota uma postura ereta e alerta)
SUZANA
(gentil e calma) Oi, Dona Viridiana, o que a senhora ‘tá fazendo aqui no quarto do meu irmão? A senhora não devia estar aqui, ele não gosta... a senhora sabe como é, adolescente, quer privacidade... Depois ele fica reclamando que as coisas dele andam sumindo...
(VIRIDIANA olha para SUZANA, incrédula. SUZANA vira as costas para VIRIDIANA, envergonhada pelo que acabara de dizer)
SUZANA
Desculpa, não foi isso... (pausa) Eu pensei que a senhora ‘tava no seu quarto e fiquei lhe procurando feito uma louca... Olha. (oferece a caneca para VIRIDIANA) Aqui ‘tá o seu chá, ‘tá na hora do seu remédio para pressão...
VIRIDIANA
(sem olhar para SUZANA) Que inferno, Suzana, eu já disse que não tenho problema de pressão nenhum!
SUZANA
Mas, dona Viridiana, o Silas pediu que eu não esquecesse os horários e...
VIRIDIANA
(ríspida) E o que, mulher? (pausa)(em um tom ameaçador) E o que, Suzana?
SUZANA
Bem... (constrangida e indecisa) ...eu...é que eu acho que a senhora vai precisar do remédio agora...
VIRIDIANA
(sarcástica) Ora, ora, ora!... A grande Suzana, a encarregada de fritar hambúrgueres no Rico’s Burger do shopping mais caro da cidade agora é também médica... (risada) Ou melhor ainda: futuróloga! (gargalhada) Que tolice a minha de consultar o Dr. Matzembacher... Eu podia ter perguntado a ti que medicamentos deveria tomar – poupava tempo e dinheiro!... (agressivamente irônica) Quem sabe você até poderia me indicar umas ervas medicinais que o teu povo conhece para curar a minha “espinhela caída”... (gargalhada)
SUZANA
(nervosa) Dona Viridiana, eu...

VIRIDIANA
(interrompendo-a) Meu sobrinho Silas devia estar mesmo muito apaixonado para decidir se casar contigo e abandonar a família para viver nesse lugar pavoroso! Olha só esse quarto! (olhando Suzana nos olhos) Teu irmão é um imprestável e esse quarto reflete bem a índole dele. (apontando para os recortes colados na parede) Essas mulheres nuas penduradas na parede – isso é coisa de um futuro tarado em formação!

SUZANA
Dona Viridiana, respeita o meu irmão, é só uma criança!
VIRIDIANA
Ha! Uma criança? Ele já tem quase quinze anos e ainda não tomou um rumo na vida!... É um delinqüente juvenil que ainda não teve competência para começar a sua carreira de assaltante, isso sim! Um tarado!
SUZANA
(muito nervosa) Dona Viridiana, a senhora não devia falar assim do Marquinhos!

VIRIDIANA
(dissimulada) Digo e repito, porque um dia desses ele andou me olhando de um jeito meio sedutor, querendo alguma coisa comigo... repugnante!
SUZANA
A senhora é louca, louca!
VIRIDIANA
Louco foi meu sobrinho, que se casou contigo, uma... uma... semi-analfabeta!
SUZANA
Pra mim chega! (entregando a caneca e a caixa de remédios para VIRIDIANA) ‘Tá aqui o seu remédio e o chá, a senhora toma se quiser e depois quando o meu marido chegar a senhora se entende com ele!
VIRIDIANA
E ainda por cima, grossa... (com um tom choroso) Eu deveria ter permanecido no asilo, aquilo sim é que era vida!... Bem tratada, um ambiente de alto luxo, tudo muito limpo e servida por pessoas atenciosas e educadas! Mas não, meu sobrinho me trouxe para cá, para morar com vocês, para viver com a família... Que família? O Silas, o sobrinho mais imbecíl e banana que eu tenho? Você, Suzana, que só sabe me agredir, é você a minha família agora? O “Marquinhos”, o taradinho em formação, é ele a minha família? (afundando o rosto em suas mãos) Que vida, meu Deus! Tantos anos dedicados à universidade, cercada de alunos brilhantes, viajando o mundo como palestrante... os aplausos, as publicações... (apontando o ambiente ao redor) ...para isso?!?!?
SUZANA
(constrangida) Dona Viridiana, me perdoa... Olha, toma o seu chá e o remédio, por favor...
VIRIDIANA
Eu me recuso a tomar qualquer coisa! Eu sei que vocês querem me envenenar! Sou dona do meu próprio nariz e sei bem o que quero da minha vida! (furiosa) Da minha vida, cuido eu!
SUZANA
Eu só quero que a senhora tome o remédio, é para o seu bem... Ainda mais agora...
VIRIDIANA
Agora, o que tem “agora”?
SUZANA
(assumindo um tom cerimonioso) Dona Viridiana, eu tenho uma notícia triste para dar a senhora...
VIRIDIANA
(zombeteira, imitando SUZANA) “Dona Viridiana, eu tenho uma notícia triste para dar a senhora...” Ha! Mais triste que eu ter perdido o meu bordado e a minha paz de espírito com a tua interrupção? (coloca a caneca e o remédio no chão)
SUZANA
A senhora sabe o Dr. Maiterzen... Maitzen...
VIRIDIANA
Dr. Mat-zen-ba-cher... Mat-zen-ba-cher, entendeu? (para si) Ah, mulherzinha ignorante...
SUZANA
Pois é, o seu médico... Eu liguei para lá para marcar sua consulta...
VIRIDIANA
(interrompendo-a) ...e, é claro, só conseguiu para daqui a dois meses, porque demorou demais para ligar para o consultório, imagino! Incompetente! Vocês querem me ver morta!
SUZANA
(em tom baixo) Ele morreu.
VIRIDIANA
(sem prestar atenção em SUZANA) E ainda confessa que é isso mesmo, que quer me ver morta! Morta! Para meter a mão na minha herança!
SUZANA
Não, Dona Viridiana. Eu disse que ele morreu.
VIRIDIANA
Dr. Matzenbacher, morto? (falseando um tom de tristeza) Oh, meu Deus! (esconde o rosto com a mão esquerda e começa a chorar) Não pode ser!...
SUZANA
Sinto muito...
VIRIDIANA
Por favor, retire-se!... Preciso ficar sozinha...
SUZANA
Sim senhora... olha, não fique triste assim, eu sei que ele era seu conhecido faz tempo, mas...
VIRIDIANA
(secamente, com um gesto apontando a porta atrás de si) Saia.
(SUZANA sai de cena e fecha a porta. VIRIDIANA levanta o rosto e sorri. Abre a sacola de bordados, joga vários novelos de lã no chão, com fúria e alegria; retira de dentro dela um boneco articulado, vestido com roupas camufladas, no qual foram encravados diversos alfinetes. Ela segura o boneco com a mão direita e ergue-o até a altura dos olhos. Sorri, triunfante. Depois, pega na mesma sacola uma pequena tesoura de unha.)
VIRIDIANA
(encravando continuamente a tesoura de unha no boneco) E agora, médico idiota! (rindo) Vai falar de novo para o meu sobrinho que eu deveria retornar para o asilo? Não vai, não vai não! Sabe por quê? Porque você está morto, agora, morto! (a luz apaga-se lentamente, enquanto VIRIDIANA continua perfurando seu “boneco-vudu” e falando) Você está morto, Matzenbacher, morto!... Morto!... Ha! Da minha vida, cuido eu... eu!...
(Cai o pano.)

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