domingo, 20 de novembro de 2011

As pazes

a partir de um argumento de Patricia Highsmith

O homem arrancou o rosbife das mãos de Abelardo e devorou-o quase de imediato. O dono da casa observou-o em silêncio por alguns minutos. Depois, ofereceu-lhe vinho, mas disse que tinha uma proposta melhor para fazer-lhe que ficar escondido na sua adega.

Há dias a esposa andava nervosa, ouvindo barulhos estranhos sob o piso da sala de jantar, dando falta de comida na cozinha, sentindo a presença de alguém. A casa de campo enorme e antiga era um bom lugar para fantasmas, mas Abelardo, com os pensamentos presos ao corpo nu da namorada distante, pouco se importava com o além: estavam ali com o pretexto de fazerem as pazes, mas ele aturava a histeria da esposa apenas por amor à herança que ela lhe deixaria caso uma tragédia premiasse seu sacrifício com uma viuvez abastada. Para acalmá-la, desceu as escadas preparado para encontrar um rato qualquer para matar sem muito esforço. A presença de um fugitivo da justiça em sua adega pareceu-lhe uma oferta generosa dos deuses.

O foragido ouviu-lhe contar de seus planos: não faria objeção à sua saída, até oferecia o carro para a sua fuga, o seguro ia pagar outro novinho para ele, mas precisava que o homem simulasse um roubo à casa e o agredisse para que a seguradora acreditasse no assalto. O homem tomou o último gole da garrafa. “É isso? Dou-lhe um soco, pego o carro e estou livre?”. Abelardo estendeu-lhe a mão com que depois pretendia matar a própria esposa e apontar o fugitivo como o assassino à sangue frio. Combinaram fazer tudo no domingo, dia de folga dos empregados. Até lá, Abelardo levaria as refeições e o homem ficaria em absoluto silêncio, à espera de certo sinal.

O dia seguinte amanheceu ensolarado, e assim permaneceria por mais três dias. Heloísa aproveitou para colher amoras para uma cheesecake, Abelardo aparou a grama sem reclamar, relembraram os velhos tempos. As violentas brigas recentes, o tédio estampado no rosto do homem, a angústia nas palavras ciumentas da mulher, tudo havia desaparecido em horas aprazíveis de tranquilidade e paz. Parecia não haver mais entre eles o espectro da moça jovem que enlouquecia cada minuto dos pensamentos do esposo. No sábado, amaram-se como na primeira noite, e Abelardo cometeu o erro de dedicar-se inteiramente ao prazer da esposa.

Apaixonada novamente, Heloísa resolveu fazer uma surpresa. Deixou que Abelardo repousasse da noite de entrega e, bem cedo, começou a preparar o almoço. Escolhidos os ingredientes para o assado favorito, Heloísa venceu o medo e desceu até a adega para escolher ela mesma o melhor dos vinhos. Deparou-se com o rapaz desnudo, em inocente cansaço. Após alguns minutos de contemplação, entre encantada com sua beleza, ela lembrou de seu amor pelo marido e despertou do torpor causado pela presença do estranho. Armada com uma garrafa, despertou o foragido, que lhe pediu calma e explicou-lhe as combinações prévias com o esposo a respeito do roubo do carro. Heloísa ouviu a tudo entre aflita e enfurecida. Sem transparecer sua raiva, explicou para o homem as mudanças nos planos para aquele domingo.

Quando Abelardo deu as três pancadas fortes no chão, o foragido subiu as escadas com uma arma. Os olhos do esposo traidor arregalaram-se, mas o novo sinal combinado não deixava dúvidas. O estrondo e o sangue assustaram o foragido, que esperava o tiro de festim. Heloísa lançou-lhe as chaves e fez sinal para que ele fugisse com o carro. Vendo o homem correr, Abelardo soltou para a esposa um gemido incrédulo. Heloísa, olhos vidrados na agonia do marido, sorriu-lhe:

— Agora descanse, meu querido. Descanse em paz.

(Robertson Frizero)

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