ROMÃO Sexagenário
SOFIA Moça jovem com ares de adolescente
PAULO Rapaz da mesma idade de SOFIA
Sala de estar decorada com mobiliário antiquado. Na parede, uma grande fotografia antiga de uma menina em tenra idade que sorri. À direita, a porta da sala. À esquerda, a porta da cozinha e do quarto. Acendem-se as luzes e ROMÃO, vestido com um pijama xadrez de flanela, está sentado em uma poltrona de espaldar alto lendo um jornal amarelado.
ROMÃO (para si) Desta casa você não sai nunca mais, nunca mais. Se esse é o seu sonho, esqueça! (colocando o jornal no colo e olhando impaciente para a cozinha) Que demônios! (gritando) Sofia! Sofia, minha filha! (pigarreia) Sofia... Que demora!
ROMÃO joga o jornal no chão, com raiva. SOFIA entra pela cozinha trazendo uma bandeja com uma xícara de chá e bolinhos.
ROMÃO Já não era sem tempo!
SOFIA deposita a bandeja sobre a mesa de centro; ela recolhe o jornal do chão, ajeita-o, dobra-o e entrega-o a ROMÃO.
SOFIA O senhor deixou o jornal cair no chão, meu pai.
ROMÃO O que te faz pensar que eu deixei o jornal cair no chão?
SOFIA O jornal estava aos seus pés, meu pai.
ROMÃO Mas eu não deixei o jornal cair no chão. Ele caiu sozinho.
SOFIA olha para ROMÃO e desvia o olhar rapidamente, desinteressada, para a bandeja de chá.
ROMÃO Não faça isso!
SOFIA Isso o que?
ROMÃO Isso o que, senhor meu pai.
SOFIA (maquinalmente, servindo o chá) Isso o que, senhor meu pai?
ROMÃO Esse desprezo no olhar. Eu reparei muito bem o modo como você me olhou quando eu disse que o jornal caiu sozinho do meu colo. É sempre assim, Sofia, você sempre arruma um jeito de colocar a culpa de tudo sobre mim. Não bastaram todos os meus anos de sacrifício e sofrimento para criar você, colocá-la nos melhores colégios da cidade, pagar tutores e professoras de balé e uma babá com curso de enfermagem para que você crescesse como a mais fina flor de nossa linhagem, ah, não, você simplesmente destrói tudo o que fiz por você cada vez que me olha com esses teus olhinhos miúdos de carrasco inquisidor.
SOFIA Quantas colheres de açúcar?
ROMÃO (amassando o jornal em suas mãos) Você sabe que eu só tomo o meu chá puro, demônios, puro! O açúcar é um veneno para mim, queres me matar?
SOFIA Até ontem, o senhor tomava o café com açúcar.
ROMÃO O café, criatura! E o que você está me servindo hoje.
SOFIA Chá preto.
ROMÃO Chá preto não é café!
SOFIA Com ou sem açúcar?
ROMÃO (irritado) Sem açúcar, já disse!
SOFIA Bolachinha?
ROMÃO Passa logo esse chá para cá, diabos!
SOFIA entrega-lhe a xícara de chá. ROMÃO toma o primeiro gole, faz uma careta detestável e devolve-lhe a xícara.
ROMÃO Odioso. Odioso. Você sabe o que é odioso?
SOFIA (desinteressada) Não.
ROMÃO O que ensinaram a você em todos esses anos de escolas caríssimas e aulas de reforço, minha filha? Deus meu, antes eu tivesse gastado todo o meu dinheiro com prostitutas! Prostitutas!
SOFIA olha assustada para ROMÃO, que lhe devolve o olhar como se implorasse para que ela não dissesse nada.
SOFIA (com estranhamento) Sim, meu pai.
ROMÃO Eu... Eu estou muito cansado.
SOFIA recolhe a bandeja e faz menção de ir para a cozinha.
ROMÃO O que é isso? O que você está fazendo?
SOFIA Vou deixá-lo descansar um pouco.
ROMÃO (irritado) E não vai me servir o chá?
SOFIA recoloca a bandeja sobre a mesa de centro e serve um pouco mais de chá na mesma xícara que ele devolvera.
SOFIA Chá preto. Sem açúcar, como o senhor gosta.
ROMÃO pega a xícara e toma um gole, sem reclamar.
ROMÃO Sente-se ali no sofá.
SOFIA senta-se, pernas unidas, mãos sobre os joelhos. ROMÃO toma o resto do chá e repousa a xícara no colo. SOFIA observa-o e, assim que ele repousa a xícara no colo, vai até lá, recolhe-a, coloca na bandeja e retorna à mesma posição anterior, em segundos.
ROMÃO Soube que a senhorita minha filha tem planos.
ROMÃO olha para SOFIA intensamente. Depois de alguns segundos, SOFIA ajeita os cabelos sobre a testa, em sinal de inquietação, e retoma a postura original.
SOFIA Planos?
ROMÃO Não se faça de inocente, Sofia. Eu sei que você anda de namoro com um rapaz que não deve ser um homem decente, já que até hoje não veio até esta casa mostrar o rosto e falar de suas intenções.
SOFIA Meu pai...
ROMÃO Não tente me desmentir, Sofia. Eu tenho total controle sobre os seus atos, sobre a sua vida, sobre o seu ir e vir entre esta casa e a faculdade. Não pense que seu velho pai é um matuto tolo, desses que vigia a filha com uma espingarda pendurada na parede enquanto ela fornica com o primeiro capiau que encontrou no meio da horta. Eu sei das coisas.
SOFIA Meu pai, por favor. Não é nada disso que o senhor está pensando.
ROMÃO (com um sorriso doentio) Sou um homem vivido, e esperto, logo percebi que essas suas modernidades iriam dar nisso. Eu tenho minhas fontes, meus olhos a cada passo do seu caminho. Eu sei que você está planejando fugir de casa atrás de um homem qualquer...
SOFIA Eu não estou planejando nada, meu pai. E não existe homem nenhum.
ROMÃO Sei. Desta casa você não sai, menina. Se esse é o seu sonho, esqueça. (apontando para a bandeja) Bolinhos.
SOFIA Como?
ROMÃO Passe-me um de seus bolinhos envenenados. Eu sei que você está me matando aos poucos, eu sei. Isso vai facilitar a sua fuga desta casa. Eu morro e daí, liberdade, não é assim?
Toca a campainha. ROMÃO olha assustado para SOFIA. A campainha toca novamente. Silêncio prolongado. SOFIA olha para ROMÃO, esperando uma ordem.
ROMÃO (aflito) Não abra.
SOFIA O senhor está esperando alguém?
ROMÃO Não abra, já disse. Não estou esperando ninguém. Quem quer que seja, só veio atrapalhar tudo agora.
A campainha toca novamente.
SOFIA Mas tem alguém na porta, melhor ver quem é.
ROMÃO Não abra, já disse! (pausa) Por favor.
PAULO (em off) Ô, seu Romão, tudo bem por aí? (bate na porta) Seu Romão, é o Paulo, o senhor está bem?
ROMÃO (para si) Que diabos! (para SOFIA) Fique em silêncio que ele vai embora.
PAULO (em off) Seu Romão, se o senhor não responder, eu vou ter que abrir a porta à força.
SOFIA (nervosa) Eu vou abrir. O senhor me desculpe.
ROMÃO Não, eu proíbo você!
SOFIA Eu sei que não era o combinado, mas eu não quero me envolver nisso. Vai que ele acha que eu estou maltratando o senhor...
SOFIA abre a porta.
PAULO (entra trazendo correspondência)(preocupado) Seu Romão, tudo bem? (para SOFIA) E quem é a senhora?
SOFIA Não sou senhora de ninguém.
PAULO Senhorita?
SOFIA olha para ROMÃO, que está visivelmente transtornado.
ROMÃO (para PAULO) Está tudo bem, Paulo. Pode me deixar sozinho agora?
PAULO (para SOFIA) Quem é você? Eu nunca vi você por aqui. (para ROMÃO) Quem é ela, seu Romão?
ROMÃO É... Minha filha.
PAULO Filha? (sorri) Que surpresa. Achei que o senhor só tivesse uma filha, a Dona Sofia. Mas ela nunca me falou nada sobre uma irmã. (para SOFIA) Qual é o nome da senhora?
SOFIA atravessa a sala e, ao passar por ROMÃO, olha para ele com indiferença. Senta-se no sofá e desvia o olhar de PAULO, que não tira os olhos dela.
ROMÃO (nervoso) Ela... A Sofia... A Sofia não sabe.
PAULO Como assim?
ROMÃO A Sofia não sabe que tem uma irmã.
PAULO olha para SOFIA, curioso. Depois de alguns segundos, sorri, cúmplice.
PAULO Ah, seu Romão, eu entendi tudo. (para ROMÃO, reservadamente) Eu nunca imaginei que o senhor tivesse... O senhor sabe... Pulado a cerca na juventude.
ROMÃO olha PAULO com raiva.
PAULO (constrangido) (para ROMÃO, reservadamente) Não, seu Romão, olha, desculpa. Eu sou um túmulo. Eu não vou falar nada sobre isso com ninguém.
ROMÃO Ninguém mesmo, Paulo. O pessoal desse prédio aqui...
PAULO (interrompendo-o) Eu sei, seu Romão, um bando de aposentados fofoqueiros que não tem o que fazer da vida a não ser cuidar da vida alheia. (olha para ROMÃO, constrangido) Não, seu Romão, desculpa, eu sei que o senhor é aposentado, e tudo, mas eu não estava falando do senhor, eu estava falando é desse pessoal aqui do prédio que se fica sabendo de uma história dessas é capaz de, sei lá...
ROMÃO (ríspido) Paulo, deixe aqui essas cartas e pode sair.
PAULO Ah, sim. (entrega as cartas para ROMÃO) É tudo conta, não tem nenhuma carta da Dona Sofia, nem de ninguém. (olha para ROMÃO assustado) Não, seu Romão, desculpa, não estou bisbilhotando nem nada, é que eu preciso verificar se a correspondência é do apartamento certo, e como a Dona Sofia me encarregou de ficar sempre de olho no senhor, sabe como é. Faz tempo que ela não vem aqui, mas eu nunca deixei o senhor na mão, não é?
ROMÃO Pode ir, Paulo. E bico calado, pelo amor de Deus!
PAULO Pode deixar, seu Romão, eu não vou contar nada para a Dona Sofia sobre... A moça ali. (para SOFIA) Olha, dona, um prazer conhecê-la, viu?
PAULO sai apressado. ROMÃO joga as cartas no chão e olha para SOFIA; começa a chorar e tremer convulsivamente. SOFIA observa-o por algum tempo; comovida, levanta-se e aproxima-se dele; abraça-o; agacha-se em frente à poltrona, segura-o pelas duas mãos e espera ele acalmar-se. Depois de algum tempo, ROMÃO respira fundo, recosta-se na poltrona e desvia o olhar de SOFIA.
SOFIA O senhor sente muita falta dela, não é?
ROMÃO balança a cabeça afirmativamente. Olha SOFIA nos olhos, vira o rosto e recolhe suas mãos das mãos dela.
SOFIA Seu Romão... O senhor não precisa ficar com vergonha de chorar na minha frente, não. Eu entendo o senhor.
ROMÃO (ríspido) Não, moça, você não entende. Ninguém entende.
SOFIA levanta-se, senta-se no sofá e observa ROMÃO atentamente. ROMÃO olha para SOFIA e os olhares se cruzam por um longo tempo. ROMÃO levanta-se da poltrona, vai até uma cômoda e pega uma carteira.
SOFIA Por que o senhor não toma a iniciativa e pede para a sua filha voltar?
ROMÃO (de costas para SOFIA) Sofia tem a vida dela. Fez as escolhas dela. E eu não estava incluído nos seus planos.
SOFIA Ela saiu de casa quando se casou, foi isso?
ROMÃO Não. Ela fugiu de casa quando se casou.
ROMÃO vai até SOFIA e oferece-lhe algumas notas de dinheiro.
SOFIA O senhor não quer começar tudo de novo?
ROMÃO Não, moça, por hoje basta.
SOFIA Eu não me importo, estou com tempo livre. Quando eu venho atender o senhor, não costumo marcar nenhum cliente para depois.
ROMÃO Eu devo ser o seu pior cliente.
SOFIA (sorrindo, colocando o dinheiro dentro do sutiã) Que nada! O senhor não imagina as coisas malucas que meus outros clientes me pedem para fazer... Não quer mesmo continuar a sua fantasia?
ROMÃO Não, moça. Por hoje chega. Estou cansado. Preciso ficar sozinho.
SOFIA Tudo bem, o senhor é quem manda. Meu telefone o senhor já sabe. É só ligar e eu venho aqui correndo.
SOFIA pega a bandeja e leva para a cozinha.
ROMÃO O que você está fazendo?
SOFIA Vou colocar lá na cozinha para o senhor. Quer que eu lave?
SOFIA deixa a bandeja na cozinha. ROMÃO observa-a em silêncio.
SOFIA (saindo do apartamento) Então, é isso. Até a próxima, seu Romão. O senhor vai ficar bem?
ROMÃO Vou, sim. Esse aqui é o meu pedaço de mundo. Dessa casa eu não saio nunca.
SOFIA Não fique triste, não. A sua filha aparece por aqui, mais dia, menos dia. O senhor vai ver. (pausa)(compreensiva) Olha, para mim, o senhor era um pai e tanto. Meu pai nunca se preocupou comigo como o senhor se preocupava com a sua filha, viu?
ROMÃO (sorri, tristemente) Obrigado... (olha para SOFIA com gratidão) Obrigado...
SOFIA (completando a frase dele) Leila. O meu nome é Leila.
SOFIA sorri e manda para ROMÃO um beijinho despreocupado; sai de cena. ROMÃO recolhe o jornal, senta-se na poltrona, reclina-se e cobre o rosto com o jornal dobrado. As luzes apagam-se.
FIM

1 comentários:
No início estranhei o vocabulário do Romão, mas depois fez todo sentido...gostei muito, o DRAMA é que é impactante, e não o que as pessoas fazem. Parabéns!
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